Capítulo 1: Headhunter

Assim, se você cortou corretamente na segunda vértebra cervical, a cabeça se encaixa no entalhe, você a segura pelo topo e a empurra para baixo, de forma que os ganchos se projetem, fixem ela no lugar e você possa, sem soltar, empurrar esta bandeja para dentro, fechar a portinhola, passar a trava e girar a chave, que liga. A partitura genética e a imagem da face são guardadas para posterior confirmação do cliente. A seguir, a radiação gama destrói qualquer célula viva, enquanto o pulso magnético inutiliza os dispositivos eletrônicos. E está morto o imortal. O que sobra pode enterrado, embalsamado, enviado para a família, pendurado na parede da sala, jogado no lixo, dado aos cachorros... o que você quiser, já que a radiação gama também mata os micróbios e ajuda a conservar por até 72 horas em temperatura ambiente.

Eu mato imortais, gosto do som disso. Era um leão-de-chácara num cassino em Window Rock, fui encontrado por um caçador-de-cabeças, isto é, um caça-talentos, e eu me tornei um caçador-de-cabeças, isto é, caça-cabeças. Meu talento especial, como você não deve ter percebido, é não ser especial. Olhe para mim: eu não sou discreto, nem ágil, nem elegante, com essa mandíbula projetada, esse nariz furado, pareço um açougueiro, um estivador, grande, forte e meio gordo, queimado demais de sol, terno barato azul-marinho, gravata vermelha, corte militar sem qualquer imaginação. Um homem se cansando de semana para pagar o fim-de-semana, alguém que entende por realização ter uma geladeira onde caibam duas dúzias de latas de cerveja. Um ser desprovido de personalidade, brilho e, principalmente, malícia. É evidente que eu jogo no time dos mocinhos, e sou um mero peão, os músculos sem nervos da bondade. Você esperaria que fosse um sargentão lento e bruto, que lhe daria voz de prisão e então você faria a demonstração habitual, como consta em seu prontuário.

E, no entanto, meu chapa, aqui estamos nós.

Não faça para mim esses olhos de Robespierre perplexo, como quem acaba rolar da guilhotina e saber que morte não vem com a lâmina, mas dois minutos depois. Sei que está me ouvindo. Enquanto preparava você, vi as traquéias atrás de seus ouvidos, aqui, aqui e aqui. Pelo modelo delas, sei que você tem nove horas de consciência antes entrar em hibernação obrigatória e a máquina em você assumir o controle. Já vi um de vocês assim: por baixo do pescoço, a cabeça cria tubos de alimentação, para então tentar reconstruir um corpo. Se houver árvores ou bichos por perto, em três dias sai andando. Se houver pessoas, em um só.

...

Muito bem, quer continuar a se fingir de morto, a escolha é sua. Mas devo dizer que não tenho a menor simpatia por sua causa. Não faço o tipo retrógrado mas, na mesma hora em que alguém começa a acreditar que não vai mais morrer, essa pessoa deixa de ser um ser humano. O que trai vocês é o sorriso, me torce o estômago de lembrar. Houve o tempo em que eu lia os prontuários até o fim. Arthur G. Millen era um supremacista branco que urinou numa caixa d'água em Atlanta e matou por reabsorção muscular oitocentos e noventa e quatro mil portadores de um marcador genético subsaariano. Derek Santayana mantinha mulheres vivas em cubos de trinta centímetros. Joseph Onyango era um canibal que controlava uma milícia de tératos com cabeça de hiena desde 94 do século passado. Em nome de minha sanidade, acabei me deixando confiar nos processos e hoje me orgulho de, um dia, cada um desses ter sido fotografado aqui dentro de minha mufla.

Esta árvore-de-Josué sinaliza a posição onde nenhum sinal chega, para que nenhum de vocês possa chamar amigos na última hora. Com essas folhas como faca, ela assistiu a esta mesma cena vinte e duas vezes, sempre ao lado desta fogueira, sempre com alguém se perguntando "por que essa dissertação sem sentido?", ao que a todos eu respondo: é uma profissão de excêntricos, desenvolvemos manias. Além disso, os antigos carrascos eram responsáveis por gestos de misericórdia, como se pendurarem nas pernas dos enforcados para que seus pescoços quebrassem e não morressem de asfixia. Reconheço que gastar seus últimos minutos me ouvindo falar talvez não soe como misericórdia a você, mas note como não está em posição de exigir nada.

Falando em posição, permita-me lhe ajudar a olhar para cima. Vê as estrelas? Diziam os antigos que um morto, ao se dissolver em seus átomos, se torna novamente parte delas. Isso era então uma resposta tranquilizadora, porque eles acreditavam que os astros regiam a vida das pessoas, causavam doenças, naufrágios, boa e má sorte. Virar poeira estrelar era ganhar poder. Olhe nos meus olhos.

Norman Bendit, você foi condenado por espionagem, furto, invasão, identidade falsa e agressão pela Blinder Attorneys Cororation, Malenkvicz Brothers Limited, Jux Incorporated e os sistemas judiciários estatais da República da França, República da Índia e Commonwealth da Nova Zelândia. A BearPaw recebeu o contrato de sua execução, que eu, o agente Anton Zhgenti, registro 8.9954-44 estou encarregado de levar a cabo. Se você tem algum sistema de emergência de emissão de voz ou texto, manifeste-se agora.

Eia, mas é viva a cabeça de Maria Antonieta... Olhe para mim, não para o chão... Ei, estou falando!... O que é que tem ali? ... Ali na moita?... Hmmm, não vejo nada... Que que foi? Ou!... Gambá! Shhss, sshhsh, sai, sai daqui! Na-na-na-não, calma bicho, não vai... não vai espirrar esse... ahhh...!

..................

Bicho estúpido, estúpido, defesa estúpida. Meus olhos parece que vão se partir e estou cheirando a ovo cozido em ácido sulfúrico, mas por acaso você está menos morto?... Ei, Bendit, pra onde você rolou? Não adianta criar pernas, eu vou achar você nesse mato. Um tiro desta aqui e você dorme melhor que o cangambá na sola do meu sapato. E aí não vai poder estar presente em sua própria execução, o que ia ser irônico. Eu não sou irônico. Vamos, infeliz, eu preciso tomar banho. Hmmm... embaixo... da... árvore! Não, em cima!... No galho, te vi! Ahr, que horrível... Uma cabeça com fitas cor-de-sangue saindo por baixo, segurando ela no galho... parecem vermes, tênias. Solta daí, coisa horrorosa, vou atirar!...

Mas não em cima de mim, cretino! Não, sai, sai, sai! Saaai! Larga, larga, solta!!!... Aff... Errei o tiro!... Sai de cima de mim! Não, não enrola essa coisa no meu pesco... pescoço.... sss...

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–Epicureanos, Zhgenti. Eram epicurianos, mas não platônicos, aristotélicos nem estoicos os que achavam que a gente é feito de átomos, que se espalham pelo universo. Destruir uma consciência não é espalhar átomos, seu materialista bebedor de cerveja. Destruir uma consciência é acabar com um processo que é melhor do que a vida... Ei, você está me ouvindo daí de dentro? Desculpe ter posto você na sua própria caixinha da morte com a cara virada para dentro, é falta de experiência. Não gosto de suas roupas de loja de departamento nem de seus pêlos nem dessa barriga de cerveja ridícula, e a cor da minha pele é três tons mais escura. Vai levar um dia e meio para ajustar seu corpo, mas acho que dá pra fazer isso enquanto dirijo de volta para para onde estava indo quando você, assim, insensivelmente, me decapitou. Falando nisso, é a única coisa sua que eu gostei, o Barracuda verde. Eu até compraria se não achasse que o valor é compatível com a indenização por meu corpo.

Não me mate, eu sou só um subordinado.

–Ah, mas você tem até um módulo de voz de emergência? Coisa bem esquisita para quem reclamava de meu sorriso. Olha, vou até abrir a bandeja, puxar você daí para te mostrar... Afff!... esse cheiro! O cangambá te acertou bem entre os olhos, não foi? Era uma máquina, imagino, infectado por minha agência, remoto-controlado para me socorrer. Eu preferiria que tivessem mandado um helicóptero blindado, mas, enfim... Pois é, agente, eu não sou um psicopata, sou um colega de profissão. Apenas nossos métodos são mais avançados que os seus, e nossos alvos tem um perfil mais elevado.

Eu só estava seguindo ordens. Eu não quis ofender.

–Que falta de imaginação, Zhgenti! Seguindo ordens? Ofender? Em nosso ramo, não se toma como ofensa o mero fato de tentarem lhe matar. Mas escute, vou ter de lhe fechar de volta ou não consigo dirijir com esse cheiro. Sorte minha que o espirro do cangambá não pegou muito no resto. Ah, sim, meu sorriso... Viu? Não é tão ruim assim... Mas, eu ia dizendo, você não me ofendeu. Aliás, como você mesmo notou, seu talento para mediocridade é prodigioso, eu diria que você é um nato. E sua técnica com o garrote no banheiro masculino é coisa que carregarei com carinhosa recordação.

Por fv...

–Cale a boca, essa voz decapitada me perturba. Agora vou parar o carro porque tem um posto logo adiante e vou aproveitar pra me livrar de você. Já que sua cabeça foi cortada na segunda vértebra cervical e encaixada no entalhe, com os ganchos fixando ela no lugar, fecho a portinhola, assim... Então eu vou seguir seu conselho e mandar você pra casa. Embrulho a caixa e, chegando no posto, dispenso você na máquina do correio. Não precisa me agradecer mas, se você fizer barulho, eu jogo no incinerador ao invés disso.

...

–Ahm... Se a placa não mente... Susan? Certo, Susan, posso despachar este pacote daqui, não é? Ah, a máquina enorme ali, toda laranja, cego que eu sou!...

–Sim, Susan, vou querer alguma coisa, sim. Duas panquecas, xarope, e um café longo. Ah, este cachecol no calor? Eu sou crooner. Peguei um resfriado e preciso preservar minha voz para cantar em Yvapai. Dá pra notar a voz estranha, não é? Sem isso de senhor Zhgenti, Suzan. Pode me chamar de Anton. É georgiano.

Capítulo 2: In Memoriam

Chame a isso ironia, ao chegar a seu destino Norman Bendit recebeu um tiro na testa. .45 o calibre, o que abriu sua cabeça de forma bastante deselegante de se ver, marcando com uma coroa de sangue e cérebro o ponto onde seu crânio partido atingiu o chão.

Duas horas antes, sem sair do Território Autônomo da Nação Navajo, rumava para Tucson, Arizona, comendo o pó do deserto de Sonora que se intrincava por onde houvesse onde. Após o tratamento por seu sangue, o corpo de Zhgenti havia adquirido sua cor olivada, mas tornar a forma quadrada de Zhgenti em seu molde esguio, perdendo a barriga e diminuindo os ombros, envolvia um processo bastante inconveniente. Por causa disso, quando começou a sentir, às onze da manhã, o cheiro de carne morta, pensou que vinha de si próprio. Como esse odor se fazia aumentar, Norman decidiu encostar o Barracuda antes que uma das forças policiais fizesse isso por ele.

Desceu e começou a rondar o carro, percebendo que a coisa vinha do porta-malas, que gotejava um líquido pútrido e marcava a estrada atrás de si. Abriu. Dentro, numa poça desse caldo morto, estava ele mesmo, isto é, seu corpo, evidentemente sem cabeça, morto havia apenas 18 horas, mas em avançada, esverdeada e inflada decomposição, causada pelos 46 graus do deserto e a ação de seu sistema imunológico artificial, programado para sumir com a evidência de própria morte. Curvou-se para trás tossindo de náusea, andou dez metros e ainda era forte o cheiro. Observou em volta da estrada, só havia as miragens do sol. Então abriu uma interface diante de seus olhos e, por ela, desligou o próprio olfato. Foi até a traseira do carro, pegou o corpo pelos pés e o arrastou atabalhoadamente, primeiro fazendo-o cair no chão, depois o trazendo para a beira da estrada, até uma pedra alta e estreita que estava próxima a um cacto saguaro, há uns 30 metros para além dela. As manchas do líquido rosado da decomposição, que parecia uma mistura de sangue e pus, secavam-se sozinhas após alguns segundos.

Encostou seu próprio cadáver sentado na pedra, de forma que não fosse visível da estrada. Então abriu outra interface em frente a seus olhos, conectando-se ao cadáver, cuja parte artificial ainda emitia sinal de rede. Verificou assim que a decomposição forçada estava em 47%. Deu-se por satifeito de que aquilo não iria virar uma múmia seca para a polícia encontrar e sentou-se ombreado ao cadáver, como se de um amigo. Acendeu um cigarro e tentou pensar que aquilo devia ter alguma gravidade existencial, que seria natural que houvesse algum desconforto - o que pensaria seu pai de reconhecer aqueles dedos mortos em uma bandeja? Se ele fosse uma pessoa... essa era a quarta vez que Bendit via a si mesmo em forma de cadáver, e que esse cadáver ficava assim insepulto. Havia algo de blasfemo nisso, e ele próprio era a abominação. "Cogito ergo sum", dizia a si mesmo como prece, em latim, nessas horas, dez vezes, como penitência. Cuspiu o pó da estrada e se levantou.

Despiu ao corpo e a si, trocou as roupas de Zhgenti, que estavam ficando largas, pelas suas, que cheiravam a morto. Sentou-se no banco do carro por dois minutos, esperando secarem-se da roupa os últimos vestígios de cadaverina e sangue. Deu partida, acelerou, fazendo desaparecer tudo atrás de si na nuvem de terra.

Tucson era uma das poucas cidades propriamente ditas da reserva Navajo, que vem a ser a maior zona de singularidade do mundo, lugar desses onde a definição de pessoa como "Homo sapiens sapiens, primata de 46 cromossomos" há muito perdeu o sentido.

Brilhava em prata e vidro Tucson, ao sol da tarde, atraindo senhoras gordas a uma aventura no mundo inumano, sórdido e ilegal, que em quase todos os casos se limitaria a uma visita a uma clínica estética e gastar a aposentadoria numa máquina de caça-níquel. A sete quilômetros da cidade, o Barracuda de Norman tomou um desvio e subiu por uma estrada tomada de grama morta. Ao contornar a colina, já pode ver a mansão, completamente verde, marrom e arruinada. O portão ancestral é aberto sem perguntas ou ruído. O carro também vai silencioso pelo jardim de estátuas quebradas e três fontes secas. Lá em cima, ele sai, deixando o carro ir estacionar a si na parte de trás da casa.

Uma fila se forma na entrada, nove pessoas se alinham e ouvem um tiro vindo do hall. O sujeito na ponta parece que fez uma piada, os dois atrás riem, tranquilos de estarem numa fila para levar um tiro, como quem espera uma vacina. Têm o sorriso ao qual provavelmente Zhgenti se referia. O sorriso de um morto-vivo.

Zumbis filosóficos, p-zombie, fi-zombie, p-zed, ou φ-zombi, surgiram como uma fantasmagoria acadêmica no século 20. Thomas Nagel e Robert Kirk imaginaram o que aconteceria a alguém que, acordando num dia qualquer, tenha surrupiada sua mente, mas mantenha as funções psicomotoras do corpo. Seu "zumbi filosófico", assim, seria um ser sem "alma", mas que de outra forma parece indistinguível de uma pessoa comum. Muito tempo após ser arquivado como brincadeira metafísica, o termo foi resgatado para nomear a forma mais extrema de trans-humanismo: pessoas que transferem suas mentes para meios artificiais e passam a controlar corpos remotamente, ou optam por não ter corpo nenhum e viverem apenas virtualmente. Seja um cérebro num jarro, um espaço de armazenamento num servidor neural ou qualquer outro dispositivo que suporte uma consciência do tipo humano, ao ter sua mente instalada remotamente, consegue-se um tipo de imortalidade não pode ser interrompida nem mesmo pela destruição do corpo que, para todos os fins, é um mero androide. Boneca-de-carne, como se diz.

Chame a isso ironia, mas Bendit, sendo um fi-zombie, não poderia ser realmente morto por taco de baseball, cano de chumbo, tiro de canhão, afogamento, devorado por um tubarão ou decapitado e posto a assar numa mufla radiativa. A mente dele não estava no cérebro em seu corpo, mas enterrada em algum servidor na Nação Navajo, ou em Tuvalu, Colômbia, Lichtenstein, provavelmente em mais de um lugar. Ele podia ter permitido ao agente georgiano que levasse adiante sua missão, queimasse sua cabeça e ganhasse sua recompensa. Mas então perderia a festa.

-Senhor... Nolan Bernstein... está ciente que é o único responsável por sua decisão de dispensar seu avatar no Universo de Eventos, isto é, seu corpo humano? Está ciente que não haverá direito a qualquer ressarcimento ou indenização em caso de aniquilação efetiva, isto é, morte?

-Sim.

-Posso prosseguir? - apontou a .45.

-Pode.

Capítulo 3: Dead Man's Party


Muito acima de ser citada em colunas sociais, a festa mais exclusiva é aquela em que se deixa o corpo na entrada. Um corpo adulto e desocupado leva de seis meses a dois anos para ser produzido, custa mais caro que um Masseratti 9009 ou um apartamento médio na Cidade do Cabo, Havana ou Canberra. Um desperdício a se ostentar, e não apenas isso, como o próprio fato de se ser um fi-zombie também é coisa cara. Manter uma consciência num servidor não é o tipo de serviço ofertado pela previdência social.

Nas exatas posições onde estavam os seguranças de aspecto americano, postavam-se agora os Guardas Revolucionários, com unifomes oliva, quepes com linha vermelha e estrela, faixas vermelhas no braços com o sinal da foice e do martelo. Não olhavam ninguém. Sem ajuda, Norman levanta-se de seu próprio corpo caído, que ele vê de forma meio apagada, indicando que não faz parte da simulação. A entrada agora aparece renovada, em seu esplendor do dia da inauguração, os convidados mortos antes dele conversavam animadamente, ouve-se a música vinda de dentro. Norman reconhece pelos corpos no chão, a frente dele a atriz Solange Hawthorne havia levado o tiro - começa a chocar-se com a beleza destruída do corpo quando nota que estava quase tropeçando na Solange real e viva:

-Olá, senhor...

-Nolan... Berns... Bernie... Prazer! Roteirista.

Quando quiser passar por ninguém, diga que é roteirista.

-Não... não acende nenhuma luz... Você fez...

-Apocalypse Now, Ben Hur, Citizen Kane...

-Hmmm.... Não...

-Dr. Strangelove, The Exorcist... Não importa. Meu próximo projeto será uma história a respeito de um professor do Québec que é queimado vivo numa festa...

-...

-Ahhh, vejo pela sua expressão... Tudo bem. Talvez o projeto seja mesmo muito... inconvencional. Boa festa!

-Ei, não! Eu não sou convencional!

Encosta sua mão na dela, transmitindo seu contato.

-Aceite. Me ligue depois.

Norman não conseguia não se sentir triunfante de ter transmitido alguma coisa para Solange Hawthorne, mesmo na certeza que ela não iria ligar. E isso o lembrou de outro espião do cinema antigo; na festa, pediria dry martini, estava decidido.

Isso de "festa do homem morto" começou, dizem, com uma música muito antiga, a música não era tão boa, e a banda também não era tudo isso. Esta festa do homem morto em particular era das mais filtradas. Não é sempre que se tem um deus como anfitrião.

Chama-se Hefesto ou Kim Chul-Jeong, há 119 anos comissário-geral do Partido Comunista da Nação Juche, que há 147 anos não é um país, é uma máfia que ora controla certos territórios, ora não. Figura notória mesmo no mundo comum, que lê notícias comuns, nem todas as lendas a seu respeito são reais, somente as piores. Kim, é verdade, matou seus três filhos, nove primos, três tios, pai, mãe e irmão antes de se tornar um fi-zombie, eternizando-se ditador. Kim, é verdade, não apenas matou sua família, como todas as pessoas de sobrenome Kim em seu país. Kim, é verdade, queimou a si próprio numa pira no estádio de Pyongyang, numa cerimônia com cantos e danças típicas. Kim, é verdade, comanda o que restou de seu país através da rede, observando de todas as câmeras, aparecendo nas telas de todas as máquinas. Kim, é verdade, nunca mais teve um corpo humano, e prende as consciências de seus opositores políticos n'O Inferno, protocolo de realidade virtual em que eles são torturados eternamente. Kim, é verdade, é o maior traficante de armas do mundo. Kim, não é verdade, não criou a Internet, nem o sistema imunológico artificial, nem o aeroplano, nem as rosas: isso é tudo propaganda do governo.

A porta da casa abre-se para uma parede vazia, que vai dar em uma floresta oriental, com as cores de primavera e uma pungente fragância de especiarias. Dentro está um pagode piramidal, cinzento, com uma pesada porta de madeira. Ao fim da estradinha patrulhada pelos Guardas Revolucionários, é recebido por moças coeanas em trajes típicos, que lançam flores. O lugar, vê numa placa, é museu de objetos presentados à gloriosa família Kim desde o século 20: panelas, telefones, rifles, um jacaré empalhado, essas coisas cobertas por fitas, serpentinas, luminárias, flores e outras banalidades festivas. A música é romântica, melosa, vulgar. Viu que seu terno, com pétalas, estava amassado e reconfigurou-o, trocando o cinza pelo azul marinho. Uma moça coreana em azul sorriu ao vê-lo assim indeciso, ele retribuiu. Robôs, ele pensou, e depois pensou de novo: provavelmente não. Ditadores não usam robôs; ditadores usam pessoas no lugar. Pegou o martini de vodca, pensava no que estava prestes a tentar fazer; tentar, pois as chances de sucesso eram remotas.

Essa história de "deus" surgiu há muitos anos com uma matéria jornalística escandalosa, de um certo Warren J., falando em como macabras figuras trans-humanas da Internet dominavam o mundo normal. A mais pura verdade, mas Warren resolveu colorir sua narrativa chamando de "deuses" os adminstradores de grandes jogos, mundos virtuais completos onde pessoas podem nascer, viver e morrer sem saber da natureza simulada de sua realidade. O jornalista batizou a todos os "deuses" de que soube (não eram os maiores) com nomes de divindades gregas. E eles, lisonjeados, assumiram os apelidos e, com o tempo, até a personalidade mitológica atribuída. Sabe-se lá por que, esse Warren J. deu-se um tiro com uma escopeta serrada. Dizem que hoje ele responde por Hermes.

Norman nunca se cansou de ler os prontuários de seus alvos. Kim Chul-Jeong foi chamado de Hefesto por fabricar armas e "morar numa montanha", isto é, não ter um corpo físico, viver no subsolo, como se diz. É considerado o fornecedor da tecnologia usada no incidente de Bangcoc, de 19 anos atrás, quando terroristas lançaram uma bomba de matéria auto-replicável no Wat Arun, que engoliu prédios, pessoas e máquinas, abrindo uma vala de quinhentos metros que só foi contida por por uma explosão magnética do exército tailandês. O pulso magnético matou todas as pessoas modificadas eletronicamente em 15 quilômetros, o que provavelmente era a intenção original do grupo antitecnológico.

Um grande retrato de Kim estampava uma porta dupla numa sacada do andar de cima, para a qual não havia qualquer escada. Provavelmente ele apareceria, sorria para os convidados, daria um discurso, e voltaria para vigiar seus súditos e torturados.

Não que essa gente tenha qualquer senso de unidade. Apenas que ter um planeta interessa tanto a gente quanto aos outros - programar algo para engolir o mundo é de uma descortesia além do aceitável. O contrato pela eliminação de Kim Chul-Jeong certamente não era coisa nem de só um governo, nem de só uma organização criminosa.

Quanto aos que estavam ali, eram a elite máxima, filtro último, o mais alto echélon não se sabe bem do que, nisso de poderem se considerar amigos do próprio diabo. Músicos, atores, diretores, animadores, e alguns que pareciam ser empresários sem graça - pois é justamente quando as pessoas escolhem como vão parecer que se revelam em sua banalidade completa. Traficantes, cuja estupidez esfuziante entrega a profissão, e cuja função numa festa não-física é meramente alegórica. Dois acadêmicos radicais realmente interessados na Nação Juche.

Norman estava no quarto martini quando a luz esmaeceu, os soldados se aprumaram, rosas produziram-se no ar com estalos coloridos, e a Internacional Socialista substituiu a música pop.

De pé ó vítimas da fome
De pé famélicos da terra
Da idéia a chama já consome
A crosta bruta que a soterra
Cortai o mal bem pelo fundo
De pé, de pé, não mais senhores
Se nada somos em tal mundo
Sejamos tudo ó produtores
Cantada ruidosamente por todos os soldados e funcionários em volta, tornou-se mais alta que a própia respiração de todos. As vozes dos soldados eram moduladas, perfeitas, operísticas, idênticas.
Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional
Os acordes transformam-se em uma espécie de versão orientalizada as dançarinas folclóricas passaram a dançar agilmente no espaço entre os convidados. Era possível sentir o calor de seus ventres e braços passando por perto.
Senhores patrões chefes supremos
Nada esperamos de nenhum
Sejamos nós que conquistemos
A terra mãe livre comum
Para não ter protestos vãos
Para sair deste antro estreito
Façamos com nossas mãos
Tudo o que a nós nos diz respeito
Norman notou que os pés delas já não tocavam o chão, e então elas decolaram por cima das cabeças, flutuando, destruindo a pequena ilusão de realidade naquela construção que em si já era uma ofensa à realidade.
O crime do rico a lei o cobre
O Estado esmaga o oprimido
Não há direito para o pobre
Ao rico tudo é permitido.
À opressão não mais sujeitos
Somos iguais todos os seres
Não mais deveres sem direitos
Não mais direitos sem deveres
O plano, ou vago esboço de plano inicial, era rastrear a voz de Kim, de seus soldados ou dos objetos na festa, e então tentar encontrar algum vestígio que apontasse para onde estavam fisicamente hospedados. Como certamente a comunicação passaria por desvios, filtros e firewalls, era remota a chance de qualquer sucesso, e grande a de ser descoberto e ter de desaparecer.
Nós fomos de fumo embriagados
Paz entre nós guerra aos senhores
Façamos greve de soldados
Somos irmãos trabalhadores.
Se a raça vil cheia de galas
Nos quer à força canibais
Logo verá que nossas balas
São para os nossos generais
Existe essa lenda de que quem morre na RV morre na vida real. Bobagem, pura história da mamãe para tirar as crianças de seus joguinhos - que espécie de idiota faria um jogo que pudesse matar o jogador? É muito mais difícil do que se pensa neutralizar um maníaco sem encarnação física - é preciso primeiro encontrar onde está hospedado, invadir e destruir fisicamente seus arquivos, cérebro, espaço de armazenamento etc. Um processo de meses, envolvendo grandes equipes, do qual Norman Bendit dava apenas o primeiro, tedioso e hesitante passo.
Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional
As dançarinas desceram e voltaram-se para a porta dupla, que se abriu, e nada revelou por 30 segundos. Materializou-se do nada a figura quadrada e pequena do ditador, aplaudido com um êxtase excessivo, de ironia cafajeste. Mas esses aplausos rapidamente tornaram-se compassados e lentos, ao notar-se a seriedade muda e terrificante em seu semblante. Kim olhou como a cada um abaixo e ao mesmo tempo a nenhum, era evidente que ali estava alguém que não exitaria em fazer o que quer que fosse a cada um ali ou a não importa quem. E ele então continou por dois minutos assim a apenas olhar enquanto recebia essas palmas nervosas, apenas para sorver do medo de sua platéia. Até que, satisfeito, deu o sinal para parar com as mãos. Pronunciou-se assim:

-Quando eu morrer tornar-me-ei uma pedra, jamais tocada por compaixão, alegria ou fúria.

Norman teve grande dificuldade em evitar de rir. Tentou sair delicadamente para um canto, fingindo estar enjoado, mas os ombros não permitiam. Notou que ninguém poderia perceber se ria, que, aliás, muitos abriam a boca num basbaque carismático diante da figura minúscula. Bendit achou muito engraçado saber que Kim Chul-Jeong, responsável por 110 milhões de mortes e 6 milhões de torturados eternos, responsável por nove explosões nucleares, confiava tanto na inocuidade dos artistas americanos que não usou qualquer filtro para se comunicar a eles.
Se castigada por vento e chuva,
apenas atingirá a si por dentro,
em eterno e impessoal silêncio,
e, enfim, olvidará a própria existência.
Nuvens carregadas, trovão distante!
Conquanto sonham,
nunca irão cantar.
Kim Chul-Jeong, o último discípulo de Iosif Stálin não-simulado do planeta, que programou o sistema de águas para deixar todas as pessoas da Coréia com a mesma cara e desistiu porque então não poderia mais identificá-los, estava hospedado em uma velha clínica criogênica em Berverly Hills.

-Se partido em pedaços, jamais direi uma palavra. Tornar-me-ei essa pedra.

Capítulo 4: A Manhã Subterrânea


—Há algo de bíblico nesse nome não? O Vale dos Ossos Secos, a Lagoa de Fogo, o Monte da Caveira... o Vale do Perturbador.

Norman Bendit, que era mais jovem que alguns de seus alunos, comentava o livro obscuro de crítica literária que faria a todos lerem, e para deixar misterioso o que só era obscuro ainda esboçou o gráfico sem legendas ele mesmo.

—E, sim, senhor Fréderic Marteau, pode soltar a risadinha, também se parece uma banana.

—Eu estava pensando numa nave alienígena.

—Uma água-viva!

—Um fantasma de lençol?

—Ku-klux-klan!

—Montanha-russa.

—Objeto fálico genérico.

—Dois riscos?

—Um gráfico.

—Um gráfico. Desenhado em 1970 para falar de autômatos e representações virtuais de pessoas. A linha pontilhada é para objetos que se mexem, a linha sólida para objetos parados. Quer dizer o seguinte: — apontava com suas mãos magras, gigantes, cheias de veias — quando um algo deixa de ser uma caricatura para imitar realisticamente um ser humano, ao invés de ele causar mais empatia, ele progressivamente se torna, ao contrário, uma coisa macabra, repulsiva, perturbadora. Até um ponto em que, de fato, passa a ser uma imitação convincente. No canto esquerdo, está seu aspirador de pó, que não tem nenhum semblante humano. Na parte alta da curva, antes de começar a descer, uma boneca Betsy, que é uma caricatura bastante evidente. Aqui vocês podem ver esses bots antigos e feios... Um: o autômato inflável entregue ao imperador do Japão Hirohito em 1928; 2. Uma tentativa de videogame erótico, 2001; 3. Boneca inflável. 4. Nasha, bot serviçal, 2079... E no fundo é onde vivem os monstros... Esse é o Vale do Perturbador... 5. Comercial do Mercado Mistassini, mês passado...

A rede minúscula de mercados havia criado uma chamada em que uma versão evidentemente artificial do dono septuagenário alertava os clientes para seu preço baixo numa dança em que seus ossos pareciam ceder à osteoporose. Os alunos locais riram muito, mas eram apenas cinco.

—Depois disso, quando as coisas ficam ainda mais parecidas com ser humano, a linha volta a subir. Aqui fica um boneco de bunraku, uma máquina que você sabe ser uma máquina, mesmo sendo idêntica... E então o grau de repulsa que se confunde com o das pessoas propriamente ditas, onde a máquina conseguiu nos tapear completamente: equivalente a um leproso, um queimado, um sujeito comum... e, no topo, as pessoas mais bonitas, Li Ye, Ananda Baradai, Solange Hawthorne.

Menos alto do que parecia de tão magro, tinha cabelos precocemente prateados e compridos no ombro, pele olivada mas bastante desbotada. Os olhos, azuis. Esse Bendit, com o nome tão cristão, parecia uma mistura de indiano com italiano - talvez alguns preferissem simplificar para "árabe" ou "iraniano", mas o fato é que havia alguma coisa em seu semblante que não se encaixava exatamente nessas definições e em nenhuma outra. Resultava atraente no conjunto, ainda que um tanto tímido demais - competente o bastante, ainda assim, para fazer circular boatos sobre quem e quem não dormiu com ele. Alguém, um dos que falavam pelo console, comentou que Solange Hawthorne não era tudo isso. Norman ruborizou, criando aquela expressão de estrangeiro bonachão a qual devia metade de seu meio-sucesso.

—Masashiro Mori, o sujeito que inventou isso, também é o autor da frase: “eu acredito que os robôs tem a natureza de Buda em si, isto é, o potencial de atingirem a buditude”.

Mais risos, dos presentes e dos conectados, o que causa grande satisfação a Bendit. A moça chatinha que está para entender tudo, que está ali em pessoa mas da qual Norman ignora o nome, pergunta entre os risos sobre a outra metade do gráfico.

—Ah, isso é interessante... A outra metade, ao contrário, fala não às máquinas tentando parecer pessoas, mas das pessoas tornando-se máquinas. Isto é, o que acontece quando os seres humanos começam a se modificar. Alguém que instale um telefone embaixo da orelha é aqui, começando a descer. Aqui, o sujeito com a cara tatuada. Piercings. Muitos piercings. Membros adicionais. Face zoomórfica. No outro Vale, uma pessoa com pernas artificiais de aranha, a coisa mais feia que vocês queiram imaginar. E, subindo novamente, coisas que já não são consideradas mais pessoas e por isso não assustam: uma consciência simulada, um térato, um androide, um bot, que é uma coisa tanto quanto o aspirador de pó.

—Um bocado preconceituoso tratar meta-humanos da mesma maneira que desenhos animados ruins, não? - a chata da primeira fila.

—Moça... moça...

—Detsy.

—Detsy. Você viu a data em que isso foi escrito? É um livro antigo, uma teoria esquecida e, eu acho, pseudocientífica. Eu pretendo usar o Vale do Perturbador para falar de criação de personagens, mas nosso tempo está quase acabando. É apenas que eu acredito que a teoria se aplica também à criação literária: pegue um personagem plano, um robô, uma caricatura, e torne-o humano, mas não humano o suficiente, e você criou um ser perturbador. O que faz Iago ser a maior encarnação do Mal em toda literatura? Em ser ao mesmo tempo mais que uma pessoa, por sua extrema inteligência, e faltar a ele todos os sentimentos comuns às pessoas, não tendo empatia ou piedade, ele é como uma máquina no Vale do Perturbador...

Fez sua cara de falar de Shakespeare e seus olhos realmente marejaram. Ele não sabia, mas os alunos achavam essa expressão uma variante de "estrangeiro engraçado".

—Mas... suficiente! Até terça!

As projeções se apagaram e os alunos locais foram se levantando. A moça com quem ele antipatizou ficou por último.

—Você... Detsy...

—Detsy Saavedra.

—Eu não me lembro de você.

—Entrei como optativa esta semana.

—Ahmnn... gostou da aula? Quer me perguntar algo?

—Você aceita um convite para uma festa?

—Shssshh... Isso é confusão. Não posso aceitar esse tipo de convite...

—...

—Ainda que se eu decida por livre e espontânea vontade aparecer em tal ou outro endereço fora de meu horário de trabalho não importe ao conselho disciplinar.

Seu rosto abriu-se num sorriso todo solar e transmitiu o endereço ao professor. Afinal, por que havia achado ela irritante?, pensava Norman. Era bonita - a beleza é um tipo de irritação, algo que nos perturba para tê-la. Era loira, de altura exatamente média de forma que ainda parece pequena, de constituição exatemente média de forma que exibe-se macia e generosa sem que torne-se bruta.

Muito bonita, pensava enquanto saía. Enquanto caía.

..........................................

Era um bar na cobertura de um hotel muito antigo, de parede de pedra, formado de arcadas e candelabros, decorado com tecidos rasgados e velas. O som era de percussão repetitiva e vozes em barítono, e rapazes e moças usavam maquiagem pesada e roupas duras em linho engomado que tentavam imitar alguma coisa que eles imaginavam ser o século 19. Norman estava em seu mais inadequado terno, e tratou de ocupar sua mão com álcool para se sentir menos tolo. Pediu um absinto tentando fazer o gênero local, e antecipou o líquido em sua boca enquanto ele derretia na pedra de açúcar e brilhava na luz negra. Não faria amigos, já estava claro, mas não seria de todo ruim. Deu um gole e sentiu-se ser puxado para um nicho.

—Hei, profe.

—Be... Detsy. Você podia ter me dito que era festa dark.

—Ah, nem eu sabia. Eu cheguei na cidade hoje, escolhi o lugar pelo nome.

—A Manhã Subterrânea? O que quer dizer isso? Que você fica até de manhã?

—Achei interessante ir à noite num lugar que tem manhã no nome, e que fica no décimo segundo andar e ainda assim é subterrâneo.

—É... talvez as coisas não precisem fazer sentido.

O meio segundo de esquisitice causado pela frase teria sido suficiente para eles se beijarem se Bendit não fosse tímido e lerdo. A velocidade com que se aproximou o deixou pairando ridiculamente cinco centímetros mais próximo do rosto dela, começando a estender os lábios, antes que saltasse de lado, jocosa, e lhe tapasse a boca com o indicador:

—Precisa se esforçar mais, poeta.

E o puxou de até uma mesa e sentou-se frente a ele. Não disse palavra, olhava num sorriso rasgado em ironia, e não sem doçura. Ele fez o gesto de aproximar a cabeça e foi freado pela ameaça do dedo em seus lábios. Beberam mais, em silêncio, isso ela aceitou, brindou com ele. Por fim, ele perguntou, impaciente:

—Quem é você, afinal?

—Sou parte dessa força que, mesmo tencionando ao mal, eternamente, sempre acaba por produzir o bem, eternamente.

—Essa é... Goethe, Fausto, não é?

—Mefistófeles.

—O que é? Você tem um acordo a me propor?

—Hoje você compra a mesma coisa, pela mesma razão, ao mesmo preço.

—Rarará... Isso é... original... Garota-diabo, então?!

Ríspida, virou-lhe o rosto. Impediu com firmeza sua aproximação quando tentou, disse ainda sem olhar:

—Se você fosse Fausto, nem saberia o que está negociando, não é? Não sabe o que é uma alma.

—Alma? Alma...

—Sim. O que você, Norman, entende por alma?

—Alma, do latim anima. Como em animal, animado, o que faz mover, aquilo que torna vivas as coisas vivas. O princípio da vida. Vitalismo, pseudociência do século 19. Os antigos viam um gato vivo e dali a dois minutos viam exatamente o mesmo gato morto. Ora, o gato não perdeu nenhuma parte, então os antigos se perguntavam, "para onde foi a vida?". Depois descobrimos que, quando você observa a vida em nível microscópico, a diferença entre uma célula viva e uma morta é a mesma entre um avião quebrado e um avião inteiro. Uma célula morta é uma célula partida. Somos apenas grandes colônias de células, que se quebram em cadeia. Isso é a morte.

—Alma, professor, é aquilo que dá a identidade de uma vida humana ao que seria só uma mente humana.

—Não entendo...

—A sua... mente... — passou as unhas firmes em órbita da cabeça de Norman, como se quisesse tirar algo de lá - sua mente é um processo que pode ser reproduzido em qualquer lugar. Mas sua alma — fez o mesmo gesto em direção a seu peito - é uma coisa que existe uma vez só.

—E você diz que vou perder minha... alma?

—Todo o dia que você acorda é como ter uma mente nova. A mente morre quando você vai dormir, e uma nova surge no outro dia, que em comum com a antiga só tem as memórias, que mesmo assim não são as mesmas, porque muito se esquece durante a noite. Então eu lhe pergunto, professor... Quanto mais importante para saber que você existe é estar continuando a mesma vida? A mesma alma?

—Acho que, não importa onde você acordasse, não teria opção a não ser se achar você mesmo, não é? Cogito ergo sum.

—Eu, professor, — fazia as palavras escapar entre os dentes — não tenho alma.

Riu desconcertado.

—Moça, você é encantadoramente inteligente, mas, espera aí, está dizendo isso tudo a sério? Achei fina a boutade literária, mas não pensei que você fizesse o tipo místico.

—Bem, que seja, não é função do comerciante dizer ao cliente o quanto vale aquilo de que ele está se desfazendo — seus olhos azuis cinzentos rapidamente tornaram-se insensíveis e absolutos como de um predador, ao tempo em que a boca talhou-se num sorriso fêmeo e ainda assim senhoril, que teve o efeito de fazer Norman sentir seus pulmões encolhendo na caixa. — E então, vamos fazer negócio?

Norman bebeu o ar do copo por longos minutos, até notar a parvoíce que fazia. Pediu para ser servido novamente, e ambos acompanharam com atenção deslocada o ritual centenário de colocar-se a colher talhada sobre o copo, os cubos de açúcar sobre a colher, e o absinto sobre o açúcar. Quando terminado, tiveram de se encarar novamente.

—Você gosta de assustar os homens? É interessante?

—De fato, é.

Alcançou a face dela com a mão, e agora ela não resitiu. Aproximou-se até sentir o calor do rosto dela no seu, ao que ouviu-a sussurrar:

—Norman, assim é sua escolha.

Seus lábios tocaram-na próximo aos ouvidos, desceram até sua boca. Ela então o absorveu, e fez-se intensa, mesmo que seus movimentos fossem mínimos. O pulso dela era rápido e ela emanava essências leves. Quando terminou, ele simplesmente a pegou pela mão e viu em seus olhos que havia desaparecido dela qualquer mistério ou ironia, ela o gostava também, era simplesmente humana, rósea, patética, cálida. Devia ser tranquilizador ver quem brincava de súcubo trinta segundos antes revelar-se só mulher, porém havia algo perturbador na transformação. Algo que ele decidiu fazer-se corajoso e ignorar.

Ela deixou-se conduzir pela mão agora, levantaram-se e foram explorarar o espaço escuro do bar, suas pedras, candelabros, barris e madeirames falsos. Aconteceu então então de descobrirem que havia escadas dando para o andar de baixo, cobertas pelas cortinas ragadas. Sem protesto dos funcionários, desceram essas escadas e perceberam que davam em quartos comuns do hotel, que haviam sido decorados da mesma maneira que o bar acima, com objetos de madeira, velas e véus. Um dos quartos, audivelmente ocupado. Outro, com uma cama com o dossel de seda e muitas dessas velas.

—Vocês descobriram o subterrâneo da manhã, mal-du-siécle. O serviço incorre em um extra de 90 francos. Querem pedir alguma coisa? — disse o garçom da porta do quarto.

Sem reação, eles deixaram-no e repor seus copos, em todo o ritual do absinto já mencionado, após o que ele simplesmente deu-lhes as costas, voltou-se para a porta, sem dizer nada, e saiu, fechando-a atrás de si. Após alguns segundos, sem muito saber o que fazer, brindaram e se sentaram na cama.

—Eu... eu... eu nem sei... de onde você é.

—Loooonge, looonge, beeem loonge... — apontava com o copo e e estendia o braço, como que dançando, após o que entornou seu copo e atirou-se de costas no centro da cama.

Norman também livrou-se para dentro de si de seu copo quase cheio, e o que há de memória a partir daí é confuso. O cheiro quente e liso do corpo, o cheiro contaminado da boca, os lençóis, as pernas e a entrada sem dor, enquanto ela fez questão de olhar-lhe nos olhos. E ela diz, suspira, morde na orelha dele: você não sai igual. Não faz sentido, ela diz: você não sai igual. Ele quer entender, mas ela passa por cima, ela sussura, seus seios saltam: você não sai igual. E ele queima de baixo acima, para dentro dela, e ela deixa-se cair quente em seu peito, beijando o pescoço e dizendo outra coisa. Diz: "meu nome é Daisy".

Com ela sobre si, sente-se ser envolvido por uma onda cálida. Fecha os olhos e se deixa cair no que sente já ser, não é sensato dizer, mas o fato é que já merece esse nome, amor. A coisa é muito rápida, é inevitável, o calor se faz aumentar. Pensa apenas em como está feliz, seja quem for ela, e sente então que a onda torna-se ardume, ele passa a suar. Ansiedade tola, diz a si, pouco antes de perceber que as velas caíram sobre a cama e o quarto está em chamas.

Norman Bendit morreu em 09 de maio de 56.

Capítulo 5: Doppelgänger

—Seu roteiro... Bernie... mata o personagem principal em 15 minutos?

—Não exatamente. O que eu não contei é que 16 de maio de 56 foi uma semana depois do incêncio.

—Ah, esperto! Espertinho!...

Pelo canto da boca borrada de batom, Solange Hawthorne destravou num soluço alcoólico, cobriu-a com as costas da mão e começou a rir. Esperto, esperto, repetiu, rindo e olhando para a mão, no instante em que seu empresário a alcançou, tirou-a da poltrona e levou-a de Bendit, que ficou fixo, em pé, vendo-os sumir entre as pessoas.

—Manhã subterrânea é uma forma de se conseguir um escravo. — ouviu atrás de si e, em pânico, não se virou, temendo confirmar de quem era a voz — Você infecta um simplório, de forma que, sem ele saber, sua mente é transferida para um servidor. Então você o mata, tzn, tzn! — no gesto de imitar um tiro, encostou, injurioso, o indicador na nuca de Bendit — É assim: vai dormir e, de manhã, acorda no subterrâneo.

Bendit viu em seu ombro a mão empedrada, com pele se descamando como a de um velho elefante, unhas enegrecidas nos cantos. Voltou-se a Kim Chul-Jeong, que expirava amônia e outras substâncias à maneira dos cirróticos quase mortos. Nada disse, mordeu os lábios.

—Você tem então uma consciência incapaz de voltar à sua vida anterior, já que ela não é considerada juridicamente mais a mesma pessoa - essa está morta, kaputz. Ora, você diz a alguém que acaba de perder qualquer laço com a vida que, veja o lado bom, agora você é imortal... desde que pague o preço pela manutenção de sua consciência no servidor remoto. E, nesse instante, basta informar a seu novo funcionário que tipo de trabalho paga mais. Um player para qualquer serviço.

—O nome do bar era Casa Usher.

—Mas Daisy ela se chamava.

Apenas assentiu. Olhou por cima do ombro do ditador, estranhando que ninguém em volta olhasse para o centro da festa diante de si.

—Este encontro é privativo. Veja lá.

Ele mesmo aparecia ao mesmo tempo em outra roda, conversando com um grupo de homens, cercado de sua Guarda Vermelha.

—E noto, camarada, que você se enerva com minha presença.

—É a autoridade que emana do Premiê.

—Autoridade...

Imediatamente, perdeu qualquer conexão com o universo. Simplesmente tornou-se um pensamento sem qualquer sensação, não tinha a sensação espacial do corpo, não sentia sua respiração, peso, visão, audição, calor, frio, nada. Era apenas capaz de ser consciente no vazio negro do nada infinito e sem eventos. Como também não havia qualquer evento além do próprio pensamento, não podia saber quanto tempo estava passando ali. Muito pouco tempo foi necessário para perceber como aquilo era uma forma de terror completo, e não havia ar nem traquéia para gritar, nem mesmo suas simulações. Não havia nem como expressar que sentia terror quando não havia para onde isso ir. Tentou se desligar, tentou meditar, pensar em nada, negar esse estado antinatural de consciência eterna, mas era impossível. Quis se divertir nas próprias memórias, mas era rapidamente vencido pelo horror do nada infinito. Não é capaz de dizer se aquilo durou segundos ou anos, mas houve o momento em que sentiu seus pulmões, ainda que virtuais, novamente. E teve seus olhos tomados por Kim Chul-Jeong.

—Nem só de privação se fazem infernos. Pode ser o contrário, um excesso sensorial, por exemplo ter a sensação de um tumor que se expande infinitamente, ter desejos insaciáveis, conhecer as notícias do mundo todo ao mesmo tempo.

—Como você fez isso? Eu devia ter sido capaz de me desconectar...

—"Eu"... Quem você toma por "eu", camarada?

—Eu, que entrei na festa, e... O que você quer dizer com isso?

—Você não entrou na festa, você nasceu na festa. Copiei a consciência do espião, mas não deixei ele se conectar, foi bloqueado. Ao invés disso, criei minha própria versão dele, para ver o que faria. É por isso que você teve acesso tão fácil a minhas informações, e também a razão de eu poder vaporizar ou mandar você para o inferno na hora em que bem entender. Em outras palavras, você é propriedade da República Popular da Nação Juche.

—...

—Vou explicar o que eu quero de você, e isso é só entre nós dois. Lá fora, você vai viajar para esse endereço que descobriu, pegar a encomenda. Então vai ser informado de para onde levar o pacote. Se tudo correr certo, deixo você escolher se quer continuar a existir ou não. Não falhe, você só tem um veículo, ser perder, vai direto para o limbo que conheceu agora.

—Acho que eu...

A outra metade da frase ele disse com algodão na boca. Viu-se transferido para uma bandeja do necrotério, gelando em suas costas. Abriu os olhos e enxergava muito mal. Buda estava certo ao equivaler vida e dor: ao se entrar em um corpo novo, a sensação que se tem é a dor de quando um membro dormente deixa de estar, mas no corpo inteiro. Caiu para o lado, cuspiu o algodão, ficou dois minutos apenas se convulsionando com a dor, até ser capaz de se mover minimamente. Firmando-se com dificulade, levantou-se da bandeja e, pelo reflexo, notou que o corpo era o dele mesmo, o que havia tomado o tiro na testa para entrar na festa. Seus olhos estavam deslocados para os lados pelo rombo da bala. Pôs as mãos no alto da cabeça e sentiu a cavidade. Viu que estava na bandeja a peça que faltava, tomou o osso que tapava o cérebro e o encaixou o melhor que pôde.

Havia cerca de 20 corpos na sala, todos igualmente com uma bala de trajetória similar, arrebentados na occipital. Bendit teve tempo, não quis, mas pensou, aquilo era um tipo de profanação, de sacrilégio. Como em rituais satânicos, um Marquês de Sade violando hóstias, no fundo não se acredita realmente em nada, e se quer provar justamente esse vácuo pelo gesto. Viu o que restou de Solange Hawthorne e tocou em sua mão, com um suspiro. Depois pensou também que esse tipo de reflexão faria sentido na mente de Norman Bendit original, que andava metafísico ultimamente, mas não na de uma cópia criada por um psicopata para cumprir uma missão e ser apagada.

Riu consigo, e torcer a boca liberou um gosto de formaldeído. Quantas pessoas podem enunciar assim tão claramente seu propósito na vida?

Encontrou suas roupas num cesto no canto da sala, ou melhor, encontrou roupas no cesto. Vestiu-se como pôde, todas tinham sangue. Saindo, notou que havia uma enfermaria, cuidadosamente pegou um rolo de bandagem e começou a prender a tampa na cabeça. Sentiu o quase calor da lanterna o alcançando pelas costas.

—Que diabo?!!!

O guarda já recuava com a arma vacilando loucamente em sua mão trêmula. Norman improvisou:

—Céeeeerebro...

E conseguiu fazê-lo correr para um lado, para que pudesse correr para o outro. Alcançou a porta aberta, saiu, e notou que o necrotério era um anexo da mansão arruinada.

Buscou e encontrou o sinal do Barracuda, mandou-o vir. Ouviu os passos do guarda, que havia tomado coragem. No que ele saiu do necrotério, Norman estava no carro queimando borracha.