Muito acima de ser citada em colunas sociais, a festa mais exclusiva é aquela em que se deixa o corpo na entrada. Um corpo adulto e desocupado leva de seis meses a dois anos para ser produzido, custa mais caro que um Masseratti 9009 ou um apartamento médio na Cidade do Cabo, Havana ou Canberra. Um desperdício a se ostentar, e não apenas isso, como o próprio fato de se ser um fi-zombie também é coisa cara. Manter uma consciência num servidor não é o tipo de serviço ofertado pela previdência social.
Nas exatas posições onde estavam os seguranças de aspecto americano, postavam-se agora os Guardas Revolucionários, com unifomes oliva, quepes com linha vermelha e estrela, faixas vermelhas no braços com o sinal da foice e do martelo. Não olhavam ninguém. Sem ajuda, Norman levanta-se de seu próprio corpo caído, que ele vê de forma meio apagada, indicando que não faz parte da simulação. A entrada agora aparece renovada, em seu esplendor do dia da inauguração, os convidados mortos antes dele conversavam animadamente, ouve-se a música vinda de dentro. Norman reconhece pelos corpos no chão, a frente dele a atriz Solange Hawthorne havia levado o tiro - começa a chocar-se com a beleza destruída do corpo quando nota que estava quase tropeçando na Solange real e viva:
-Olá, senhor...
-Nolan... Berns... Bernie... Prazer! Roteirista.
Quando quiser passar por ninguém, diga que é roteirista.
-Não... não acende nenhuma luz... Você fez...
-Apocalypse Now, Ben Hur, Citizen Kane...
-Hmmm.... Não...
-Dr. Strangelove, The Exorcist... Não importa. Meu próximo projeto será uma história a respeito de um professor do Québec que é queimado vivo numa festa...
-...
-Ahhh, vejo pela sua expressão... Tudo bem. Talvez o projeto seja mesmo muito... inconvencional. Boa festa!
-Ei, não! Eu não sou convencional!
Encosta sua mão na dela, transmitindo seu contato.
-Aceite. Me ligue depois.
Norman não conseguia não se sentir triunfante de ter transmitido alguma coisa para Solange Hawthorne, mesmo na certeza que ela não iria ligar. E isso o lembrou de outro espião do cinema antigo; na festa, pediria dry martini, estava decidido.
Isso de "festa do homem morto" começou, dizem, com uma música muito antiga, a música não era tão boa, e a banda também não era tudo isso. Esta festa do homem morto em particular era das mais filtradas. Não é sempre que se tem um deus como anfitrião.
Chama-se Hefesto ou Kim Chul-Jeong, há 119 anos comissário-geral do Partido Comunista da Nação Juche, que há 147 anos não é um país, é uma máfia que ora controla certos territórios, ora não. Figura notória mesmo no mundo comum, que lê notícias comuns, nem todas as lendas a seu respeito são reais, somente as piores. Kim, é verdade, matou seus três filhos, nove primos, três tios, pai, mãe e irmão antes de se tornar um fi-zombie, eternizando-se ditador. Kim, é verdade, não apenas matou sua família, como todas as pessoas de sobrenome Kim em seu país. Kim, é verdade, queimou a si próprio numa pira no estádio de Pyongyang, numa cerimônia com cantos e danças típicas. Kim, é verdade, comanda o que restou de seu país através da rede, observando de todas as câmeras, aparecendo nas telas de todas as máquinas. Kim, é verdade, nunca mais teve um corpo humano, e prende as consciências de seus opositores políticos n'O Inferno, protocolo de realidade virtual em que eles são torturados eternamente. Kim, é verdade, é o maior traficante de armas do mundo. Kim, não é verdade, não criou a Internet, nem o sistema imunológico artificial, nem o aeroplano, nem as rosas: isso é tudo propaganda do governo.
A porta da casa abre-se para uma parede vazia, que vai dar em uma floresta oriental, com as cores de primavera e uma pungente fragância de especiarias. Dentro está um pagode piramidal, cinzento, com uma pesada porta de madeira. Ao fim da estradinha patrulhada pelos Guardas Revolucionários, é recebido por moças coeanas em trajes típicos, que lançam flores. O lugar, vê numa placa, é museu de objetos presentados à gloriosa família Kim desde o século 20: panelas, telefones, rifles, um jacaré empalhado, essas coisas cobertas por fitas, serpentinas, luminárias, flores e outras banalidades festivas. A música é romântica, melosa, vulgar. Viu que seu terno, com pétalas, estava amassado e reconfigurou-o, trocando o cinza pelo azul marinho. Uma moça coreana em azul sorriu ao vê-lo assim indeciso, ele retribuiu. Robôs, ele pensou, e depois pensou de novo: provavelmente não. Ditadores não usam robôs; ditadores usam pessoas no lugar. Pegou o martini de vodca, pensava no que estava prestes a tentar fazer; tentar, pois as chances de sucesso eram remotas.
Essa história de "deus" surgiu há muitos anos com uma matéria jornalística escandalosa, de um certo Warren J., falando em como macabras figuras trans-humanas da Internet dominavam o mundo normal. A mais pura verdade, mas Warren resolveu colorir sua narrativa chamando de "deuses" os adminstradores de grandes jogos, mundos virtuais completos onde pessoas podem nascer, viver e morrer sem saber da natureza simulada de sua realidade. O jornalista batizou a todos os "deuses" de que soube (não eram os maiores) com nomes de divindades gregas. E eles, lisonjeados, assumiram os apelidos e, com o tempo, até a personalidade mitológica atribuída. Sabe-se lá por que, esse Warren J. deu-se um tiro com uma escopeta serrada. Dizem que hoje ele responde por Hermes.
Norman nunca se cansou de ler os prontuários de seus alvos. Kim Chul-Jeong foi chamado de Hefesto por fabricar armas e "morar numa montanha", isto é, não ter um corpo físico, viver no subsolo, como se diz. É considerado o fornecedor da tecnologia usada no incidente de Bangcoc, de 19 anos atrás, quando terroristas lançaram uma bomba de matéria auto-replicável no Wat Arun, que engoliu prédios, pessoas e máquinas, abrindo uma vala de quinhentos metros que só foi contida por por uma explosão magnética do exército tailandês. O pulso magnético matou todas as pessoas modificadas eletronicamente em 15 quilômetros, o que provavelmente era a intenção original do grupo antitecnológico.
Um grande retrato de Kim estampava uma porta dupla numa sacada do andar de cima, para a qual não havia qualquer escada. Provavelmente ele apareceria, sorria para os convidados, daria um discurso, e voltaria para vigiar seus súditos e torturados.
Não que essa gente tenha qualquer senso de unidade. Apenas que ter um planeta interessa tanto a gente quanto aos outros - programar algo para engolir o mundo é de uma descortesia além do aceitável. O contrato pela eliminação de Kim Chul-Jeong certamente não era coisa nem de só um governo, nem de só uma organização criminosa.
Quanto aos que estavam ali, eram a elite máxima, filtro último, o mais alto echélon não se sabe bem do que, nisso de poderem se considerar amigos do próprio diabo. Músicos, atores, diretores, animadores, e alguns que pareciam ser empresários sem graça - pois é justamente quando as pessoas escolhem como vão parecer que se revelam em sua banalidade completa. Traficantes, cuja estupidez esfuziante entrega a profissão, e cuja função numa festa não-física é meramente alegórica. Dois acadêmicos radicais realmente interessados na Nação Juche.
Norman estava no quarto martini quando a luz esmaeceu, os soldados se aprumaram, rosas produziram-se no ar com estalos coloridos, e a Internacional Socialista substituiu a música pop.
De pé ó vítimas da fomeCantada ruidosamente por todos os soldados e funcionários em volta, tornou-se mais alta que a própia respiração de todos. As vozes dos soldados eram moduladas, perfeitas, operísticas, idênticas.
De pé famélicos da terra
Da idéia a chama já consome
A crosta bruta que a soterra
Cortai o mal bem pelo fundo
De pé, de pé, não mais senhores
Se nada somos em tal mundo
Sejamos tudo ó produtores
Bem unidos façamosOs acordes transformam-se em uma espécie de versão orientalizada as dançarinas folclóricas passaram a dançar agilmente no espaço entre os convidados. Era possível sentir o calor de seus ventres e braços passando por perto.
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional
Senhores patrões chefes supremosNorman notou que os pés delas já não tocavam o chão, e então elas decolaram por cima das cabeças, flutuando, destruindo a pequena ilusão de realidade naquela construção que em si já era uma ofensa à realidade.
Nada esperamos de nenhum
Sejamos nós que conquistemos
A terra mãe livre comum
Para não ter protestos vãos
Para sair deste antro estreito
Façamos com nossas mãos
Tudo o que a nós nos diz respeito
O crime do rico a lei o cobreO plano, ou vago esboço de plano inicial, era rastrear a voz de Kim, de seus soldados ou dos objetos na festa, e então tentar encontrar algum vestígio que apontasse para onde estavam fisicamente hospedados. Como certamente a comunicação passaria por desvios, filtros e firewalls, era remota a chance de qualquer sucesso, e grande a de ser descoberto e ter de desaparecer.
O Estado esmaga o oprimido
Não há direito para o pobre
Ao rico tudo é permitido.
À opressão não mais sujeitos
Somos iguais todos os seres
Não mais deveres sem direitos
Não mais direitos sem deveres
Nós fomos de fumo embriagadosExiste essa lenda de que quem morre na RV morre na vida real. Bobagem, pura história da mamãe para tirar as crianças de seus joguinhos - que espécie de idiota faria um jogo que pudesse matar o jogador? É muito mais difícil do que se pensa neutralizar um maníaco sem encarnação física - é preciso primeiro encontrar onde está hospedado, invadir e destruir fisicamente seus arquivos, cérebro, espaço de armazenamento etc. Um processo de meses, envolvendo grandes equipes, do qual Norman Bendit dava apenas o primeiro, tedioso e hesitante passo.
Paz entre nós guerra aos senhores
Façamos greve de soldados
Somos irmãos trabalhadores.
Se a raça vil cheia de galas
Nos quer à força canibais
Logo verá que nossas balas
São para os nossos generais
Bem unidos façamosAs dançarinas desceram e voltaram-se para a porta dupla, que se abriu, e nada revelou por 30 segundos. Materializou-se do nada a figura quadrada e pequena do ditador, aplaudido com um êxtase excessivo, de ironia cafajeste. Mas esses aplausos rapidamente tornaram-se compassados e lentos, ao notar-se a seriedade muda e terrificante em seu semblante. Kim olhou como a cada um abaixo e ao mesmo tempo a nenhum, era evidente que ali estava alguém que não exitaria em fazer o que quer que fosse a cada um ali ou a não importa quem. E ele então continou por dois minutos assim a apenas olhar enquanto recebia essas palmas nervosas, apenas para sorver do medo de sua platéia. Até que, satisfeito, deu o sinal para parar com as mãos. Pronunciou-se assim:
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional
-Quando eu morrer tornar-me-ei uma pedra, jamais tocada por compaixão, alegria ou fúria.
Norman teve grande dificuldade em evitar de rir. Tentou sair delicadamente para um canto, fingindo estar enjoado, mas os ombros não permitiam. Notou que ninguém poderia perceber se ria, que, aliás, muitos abriam a boca num basbaque carismático diante da figura minúscula. Bendit achou muito engraçado saber que Kim Chul-Jeong, responsável por 110 milhões de mortes e 6 milhões de torturados eternos, responsável por nove explosões nucleares, confiava tanto na inocuidade dos artistas americanos que não usou qualquer filtro para se comunicar a eles.
Se castigada por vento e chuva,Kim Chul-Jeong, o último discípulo de Iosif Stálin não-simulado do planeta, que programou o sistema de águas para deixar todas as pessoas da Coréia com a mesma cara e desistiu porque então não poderia mais identificá-los, estava hospedado em uma velha clínica criogênica em Berverly Hills.
apenas atingirá a si por dentro,
em eterno e impessoal silêncio,
e, enfim, olvidará a própria existência.
Nuvens carregadas, trovão distante!
Conquanto sonham,
nunca irão cantar.
-Se partido em pedaços, jamais direi uma palavra. Tornar-me-ei essa pedra.

Um comentário:
Bastante modificado, o final tem um sentido diferente.
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