Chame a isso ironia, ao chegar a seu destino Norman Bendit recebeu um tiro na testa. .45 o calibre, o que abriu sua cabeça de forma bastante deselegante de se ver, marcando com uma coroa de sangue e cérebro o ponto onde seu crânio partido atingiu o chão.
Duas horas antes, sem sair do Território Autônomo da Nação Navajo, rumava para Tucson, Arizona, comendo o pó do deserto de Sonora que se intrincava por onde houvesse onde. Após o tratamento por seu sangue, o corpo de Zhgenti havia adquirido sua cor olivada, mas tornar a forma quadrada de Zhgenti em seu molde esguio, perdendo a barriga e diminuindo os ombros, envolvia um processo bastante inconveniente. Por causa disso, quando começou a sentir, às onze da manhã, o cheiro de carne morta, pensou que vinha de si próprio. Como esse odor se fazia aumentar, Norman decidiu encostar o Barracuda antes que uma das forças policiais fizesse isso por ele.
Desceu e começou a rondar o carro, percebendo que a coisa vinha do porta-malas, que gotejava um líquido pútrido e marcava a estrada atrás de si. Abriu. Dentro, numa poça desse caldo morto, estava ele mesmo, isto é, seu corpo, evidentemente sem cabeça, morto havia apenas 18 horas, mas em avançada, esverdeada e inflada decomposição, causada pelos 46 graus do deserto e a ação de seu sistema imunológico artificial, programado para sumir com a evidência de própria morte. Curvou-se para trás tossindo de náusea, andou dez metros e ainda era forte o cheiro. Observou em volta da estrada, só havia as miragens do sol. Então abriu uma interface diante de seus olhos e, por ela, desligou o próprio olfato. Foi até a traseira do carro, pegou o corpo pelos pés e o arrastou atabalhoadamente, primeiro fazendo-o cair no chão, depois o trazendo para a beira da estrada, até uma pedra alta e estreita que estava próxima a um cacto saguaro, há uns 30 metros para além dela. As manchas do líquido rosado da decomposição, que parecia uma mistura de sangue e pus, secavam-se sozinhas após alguns segundos.
Encostou seu próprio cadáver sentado na pedra, de forma que não fosse visível da estrada. Então abriu outra interface em frente a seus olhos, conectando-se ao cadáver, cuja parte artificial ainda emitia sinal de rede. Verificou assim que a decomposição forçada estava em 47%. Deu-se por satifeito de que aquilo não iria virar uma múmia seca para a polícia encontrar e sentou-se ombreado ao cadáver, como se de um amigo. Acendeu um cigarro e tentou pensar que aquilo devia ter alguma gravidade existencial, que seria natural que houvesse algum desconforto - o que pensaria seu pai de reconhecer aqueles dedos mortos em uma bandeja? Se ele fosse uma pessoa... essa era a quarta vez que Bendit via a si mesmo em forma de cadáver, e que esse cadáver ficava assim insepulto. Havia algo de blasfemo nisso, e ele próprio era a abominação. "Cogito ergo sum", dizia a si mesmo como prece, em latim, nessas horas, dez vezes, como penitência. Cuspiu o pó da estrada e se levantou.
Despiu ao corpo e a si, trocou as roupas de Zhgenti, que estavam ficando largas, pelas suas, que cheiravam a morto. Sentou-se no banco do carro por dois minutos, esperando secarem-se da roupa os últimos vestígios de cadaverina e sangue. Deu partida, acelerou, fazendo desaparecer tudo atrás de si na nuvem de terra.
Tucson era uma das poucas cidades propriamente ditas da reserva Navajo, que vem a ser a maior zona de singularidade do mundo, lugar desses onde a definição de pessoa como "Homo sapiens sapiens, primata de 46 cromossomos" há muito perdeu o sentido.
Brilhava em prata e vidro Tucson, ao sol da tarde, atraindo senhoras gordas a uma aventura no mundo inumano, sórdido e ilegal, que em quase todos os casos se limitaria a uma visita a uma clínica estética e gastar a aposentadoria numa máquina de caça-níquel. A sete quilômetros da cidade, o Barracuda de Norman tomou um desvio e subiu por uma estrada tomada de grama morta. Ao contornar a colina, já pode ver a mansão, completamente verde, marrom e arruinada. O portão ancestral é aberto sem perguntas ou ruído. O carro também vai silencioso pelo jardim de estátuas quebradas e três fontes secas. Lá em cima, ele sai, deixando o carro ir estacionar a si na parte de trás da casa.
Uma fila se forma na entrada, nove pessoas se alinham e ouvem um tiro vindo do hall. O sujeito na ponta parece que fez uma piada, os dois atrás riem, tranquilos de estarem numa fila para levar um tiro, como quem espera uma vacina. Têm o sorriso ao qual provavelmente Zhgenti se referia. O sorriso de um morto-vivo.
Zumbis filosóficos, p-zombie, fi-zombie, p-zed, ou φ-zombi, surgiram como uma fantasmagoria acadêmica no século 20. Thomas Nagel e Robert Kirk imaginaram o que aconteceria a alguém que, acordando num dia qualquer, tenha surrupiada sua mente, mas mantenha as funções psicomotoras do corpo. Seu "zumbi filosófico", assim, seria um ser sem "alma", mas que de outra forma parece indistinguível de uma pessoa comum. Muito tempo após ser arquivado como brincadeira metafísica, o termo foi resgatado para nomear a forma mais extrema de trans-humanismo: pessoas que transferem suas mentes para meios artificiais e passam a controlar corpos remotamente, ou optam por não ter corpo nenhum e viverem apenas virtualmente. Seja um cérebro num jarro, um espaço de armazenamento num servidor neural ou qualquer outro dispositivo que suporte uma consciência do tipo humano, ao ter sua mente instalada remotamente, consegue-se um tipo de imortalidade não pode ser interrompida nem mesmo pela destruição do corpo que, para todos os fins, é um mero androide. Boneca-de-carne, como se diz.
Chame a isso ironia, mas Bendit, sendo um fi-zombie, não poderia ser realmente morto por taco de baseball, cano de chumbo, tiro de canhão, afogamento, devorado por um tubarão ou decapitado e posto a assar numa mufla radiativa. A mente dele não estava no cérebro em seu corpo, mas enterrada em algum servidor na Nação Navajo, ou em Tuvalu, Colômbia, Lichtenstein, provavelmente em mais de um lugar. Ele podia ter permitido ao agente georgiano que levasse adiante sua missão, queimasse sua cabeça e ganhasse sua recompensa. Mas então perderia a festa.
-Senhor... Nolan Bernstein... está ciente que é o único responsável por sua decisão de dispensar seu avatar no Universo de Eventos, isto é, seu corpo humano? Está ciente que não haverá direito a qualquer ressarcimento ou indenização em caso de aniquilação efetiva, isto é, morte?
-Sim.
-Posso prosseguir? - apontou a .45.
-Pode.
Capítulo 2: In Memoriam
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Um comentário:
Em 22-04-09, expandida a explicação sobre o Mal e os zumbis filosóficos.
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