Capítulo 4: A Manhã Subterrânea


—Há algo de bíblico nesse nome não? O Vale dos Ossos Secos, a Lagoa de Fogo, o Monte da Caveira... o Vale do Perturbador.

Norman Bendit, que era mais jovem que alguns de seus alunos, comentava o livro obscuro de crítica literária que faria a todos lerem, e para deixar misterioso o que só era obscuro ainda esboçou o gráfico sem legendas ele mesmo.

—E, sim, senhor Fréderic Marteau, pode soltar a risadinha, também se parece uma banana.

—Eu estava pensando numa nave alienígena.

—Uma água-viva!

—Um fantasma de lençol?

—Ku-klux-klan!

—Montanha-russa.

—Objeto fálico genérico.

—Dois riscos?

—Um gráfico.

—Um gráfico. Desenhado em 1970 para falar de autômatos e representações virtuais de pessoas. A linha pontilhada é para objetos que se mexem, a linha sólida para objetos parados. Quer dizer o seguinte: — apontava com suas mãos magras, gigantes, cheias de veias — quando um algo deixa de ser uma caricatura para imitar realisticamente um ser humano, ao invés de ele causar mais empatia, ele progressivamente se torna, ao contrário, uma coisa macabra, repulsiva, perturbadora. Até um ponto em que, de fato, passa a ser uma imitação convincente. No canto esquerdo, está seu aspirador de pó, que não tem nenhum semblante humano. Na parte alta da curva, antes de começar a descer, uma boneca Betsy, que é uma caricatura bastante evidente. Aqui vocês podem ver esses bots antigos e feios... Um: o autômato inflável entregue ao imperador do Japão Hirohito em 1928; 2. Uma tentativa de videogame erótico, 2001; 3. Boneca inflável. 4. Nasha, bot serviçal, 2079... E no fundo é onde vivem os monstros... Esse é o Vale do Perturbador... 5. Comercial do Mercado Mistassini, mês passado...

A rede minúscula de mercados havia criado uma chamada em que uma versão evidentemente artificial do dono septuagenário alertava os clientes para seu preço baixo numa dança em que seus ossos pareciam ceder à osteoporose. Os alunos locais riram muito, mas eram apenas cinco.

—Depois disso, quando as coisas ficam ainda mais parecidas com ser humano, a linha volta a subir. Aqui fica um boneco de bunraku, uma máquina que você sabe ser uma máquina, mesmo sendo idêntica... E então o grau de repulsa que se confunde com o das pessoas propriamente ditas, onde a máquina conseguiu nos tapear completamente: equivalente a um leproso, um queimado, um sujeito comum... e, no topo, as pessoas mais bonitas, Li Ye, Ananda Baradai, Solange Hawthorne.

Menos alto do que parecia de tão magro, tinha cabelos precocemente prateados e compridos no ombro, pele olivada mas bastante desbotada. Os olhos, azuis. Esse Bendit, com o nome tão cristão, parecia uma mistura de indiano com italiano - talvez alguns preferissem simplificar para "árabe" ou "iraniano", mas o fato é que havia alguma coisa em seu semblante que não se encaixava exatamente nessas definições e em nenhuma outra. Resultava atraente no conjunto, ainda que um tanto tímido demais - competente o bastante, ainda assim, para fazer circular boatos sobre quem e quem não dormiu com ele. Alguém, um dos que falavam pelo console, comentou que Solange Hawthorne não era tudo isso. Norman ruborizou, criando aquela expressão de estrangeiro bonachão a qual devia metade de seu meio-sucesso.

—Masashiro Mori, o sujeito que inventou isso, também é o autor da frase: “eu acredito que os robôs tem a natureza de Buda em si, isto é, o potencial de atingirem a buditude”.

Mais risos, dos presentes e dos conectados, o que causa grande satisfação a Bendit. A moça chatinha que está para entender tudo, que está ali em pessoa mas da qual Norman ignora o nome, pergunta entre os risos sobre a outra metade do gráfico.

—Ah, isso é interessante... A outra metade, ao contrário, fala não às máquinas tentando parecer pessoas, mas das pessoas tornando-se máquinas. Isto é, o que acontece quando os seres humanos começam a se modificar. Alguém que instale um telefone embaixo da orelha é aqui, começando a descer. Aqui, o sujeito com a cara tatuada. Piercings. Muitos piercings. Membros adicionais. Face zoomórfica. No outro Vale, uma pessoa com pernas artificiais de aranha, a coisa mais feia que vocês queiram imaginar. E, subindo novamente, coisas que já não são consideradas mais pessoas e por isso não assustam: uma consciência simulada, um térato, um androide, um bot, que é uma coisa tanto quanto o aspirador de pó.

—Um bocado preconceituoso tratar meta-humanos da mesma maneira que desenhos animados ruins, não? - a chata da primeira fila.

—Moça... moça...

—Detsy.

—Detsy. Você viu a data em que isso foi escrito? É um livro antigo, uma teoria esquecida e, eu acho, pseudocientífica. Eu pretendo usar o Vale do Perturbador para falar de criação de personagens, mas nosso tempo está quase acabando. É apenas que eu acredito que a teoria se aplica também à criação literária: pegue um personagem plano, um robô, uma caricatura, e torne-o humano, mas não humano o suficiente, e você criou um ser perturbador. O que faz Iago ser a maior encarnação do Mal em toda literatura? Em ser ao mesmo tempo mais que uma pessoa, por sua extrema inteligência, e faltar a ele todos os sentimentos comuns às pessoas, não tendo empatia ou piedade, ele é como uma máquina no Vale do Perturbador...

Fez sua cara de falar de Shakespeare e seus olhos realmente marejaram. Ele não sabia, mas os alunos achavam essa expressão uma variante de "estrangeiro engraçado".

—Mas... suficiente! Até terça!

As projeções se apagaram e os alunos locais foram se levantando. A moça com quem ele antipatizou ficou por último.

—Você... Detsy...

—Detsy Saavedra.

—Eu não me lembro de você.

—Entrei como optativa esta semana.

—Ahmnn... gostou da aula? Quer me perguntar algo?

—Você aceita um convite para uma festa?

—Shssshh... Isso é confusão. Não posso aceitar esse tipo de convite...

—...

—Ainda que se eu decida por livre e espontânea vontade aparecer em tal ou outro endereço fora de meu horário de trabalho não importe ao conselho disciplinar.

Seu rosto abriu-se num sorriso todo solar e transmitiu o endereço ao professor. Afinal, por que havia achado ela irritante?, pensava Norman. Era bonita - a beleza é um tipo de irritação, algo que nos perturba para tê-la. Era loira, de altura exatamente média de forma que ainda parece pequena, de constituição exatemente média de forma que exibe-se macia e generosa sem que torne-se bruta.

Muito bonita, pensava enquanto saía. Enquanto caía.

..........................................

Era um bar na cobertura de um hotel muito antigo, de parede de pedra, formado de arcadas e candelabros, decorado com tecidos rasgados e velas. O som era de percussão repetitiva e vozes em barítono, e rapazes e moças usavam maquiagem pesada e roupas duras em linho engomado que tentavam imitar alguma coisa que eles imaginavam ser o século 19. Norman estava em seu mais inadequado terno, e tratou de ocupar sua mão com álcool para se sentir menos tolo. Pediu um absinto tentando fazer o gênero local, e antecipou o líquido em sua boca enquanto ele derretia na pedra de açúcar e brilhava na luz negra. Não faria amigos, já estava claro, mas não seria de todo ruim. Deu um gole e sentiu-se ser puxado para um nicho.

—Hei, profe.

—Be... Detsy. Você podia ter me dito que era festa dark.

—Ah, nem eu sabia. Eu cheguei na cidade hoje, escolhi o lugar pelo nome.

—A Manhã Subterrânea? O que quer dizer isso? Que você fica até de manhã?

—Achei interessante ir à noite num lugar que tem manhã no nome, e que fica no décimo segundo andar e ainda assim é subterrâneo.

—É... talvez as coisas não precisem fazer sentido.

O meio segundo de esquisitice causado pela frase teria sido suficiente para eles se beijarem se Bendit não fosse tímido e lerdo. A velocidade com que se aproximou o deixou pairando ridiculamente cinco centímetros mais próximo do rosto dela, começando a estender os lábios, antes que saltasse de lado, jocosa, e lhe tapasse a boca com o indicador:

—Precisa se esforçar mais, poeta.

E o puxou de até uma mesa e sentou-se frente a ele. Não disse palavra, olhava num sorriso rasgado em ironia, e não sem doçura. Ele fez o gesto de aproximar a cabeça e foi freado pela ameaça do dedo em seus lábios. Beberam mais, em silêncio, isso ela aceitou, brindou com ele. Por fim, ele perguntou, impaciente:

—Quem é você, afinal?

—Sou parte dessa força que, mesmo tencionando ao mal, eternamente, sempre acaba por produzir o bem, eternamente.

—Essa é... Goethe, Fausto, não é?

—Mefistófeles.

—O que é? Você tem um acordo a me propor?

—Hoje você compra a mesma coisa, pela mesma razão, ao mesmo preço.

—Rarará... Isso é... original... Garota-diabo, então?!

Ríspida, virou-lhe o rosto. Impediu com firmeza sua aproximação quando tentou, disse ainda sem olhar:

—Se você fosse Fausto, nem saberia o que está negociando, não é? Não sabe o que é uma alma.

—Alma? Alma...

—Sim. O que você, Norman, entende por alma?

—Alma, do latim anima. Como em animal, animado, o que faz mover, aquilo que torna vivas as coisas vivas. O princípio da vida. Vitalismo, pseudociência do século 19. Os antigos viam um gato vivo e dali a dois minutos viam exatamente o mesmo gato morto. Ora, o gato não perdeu nenhuma parte, então os antigos se perguntavam, "para onde foi a vida?". Depois descobrimos que, quando você observa a vida em nível microscópico, a diferença entre uma célula viva e uma morta é a mesma entre um avião quebrado e um avião inteiro. Uma célula morta é uma célula partida. Somos apenas grandes colônias de células, que se quebram em cadeia. Isso é a morte.

—Alma, professor, é aquilo que dá a identidade de uma vida humana ao que seria só uma mente humana.

—Não entendo...

—A sua... mente... — passou as unhas firmes em órbita da cabeça de Norman, como se quisesse tirar algo de lá - sua mente é um processo que pode ser reproduzido em qualquer lugar. Mas sua alma — fez o mesmo gesto em direção a seu peito - é uma coisa que existe uma vez só.

—E você diz que vou perder minha... alma?

—Todo o dia que você acorda é como ter uma mente nova. A mente morre quando você vai dormir, e uma nova surge no outro dia, que em comum com a antiga só tem as memórias, que mesmo assim não são as mesmas, porque muito se esquece durante a noite. Então eu lhe pergunto, professor... Quanto mais importante para saber que você existe é estar continuando a mesma vida? A mesma alma?

—Acho que, não importa onde você acordasse, não teria opção a não ser se achar você mesmo, não é? Cogito ergo sum.

—Eu, professor, — fazia as palavras escapar entre os dentes — não tenho alma.

Riu desconcertado.

—Moça, você é encantadoramente inteligente, mas, espera aí, está dizendo isso tudo a sério? Achei fina a boutade literária, mas não pensei que você fizesse o tipo místico.

—Bem, que seja, não é função do comerciante dizer ao cliente o quanto vale aquilo de que ele está se desfazendo — seus olhos azuis cinzentos rapidamente tornaram-se insensíveis e absolutos como de um predador, ao tempo em que a boca talhou-se num sorriso fêmeo e ainda assim senhoril, que teve o efeito de fazer Norman sentir seus pulmões encolhendo na caixa. — E então, vamos fazer negócio?

Norman bebeu o ar do copo por longos minutos, até notar a parvoíce que fazia. Pediu para ser servido novamente, e ambos acompanharam com atenção deslocada o ritual centenário de colocar-se a colher talhada sobre o copo, os cubos de açúcar sobre a colher, e o absinto sobre o açúcar. Quando terminado, tiveram de se encarar novamente.

—Você gosta de assustar os homens? É interessante?

—De fato, é.

Alcançou a face dela com a mão, e agora ela não resitiu. Aproximou-se até sentir o calor do rosto dela no seu, ao que ouviu-a sussurrar:

—Norman, assim é sua escolha.

Seus lábios tocaram-na próximo aos ouvidos, desceram até sua boca. Ela então o absorveu, e fez-se intensa, mesmo que seus movimentos fossem mínimos. O pulso dela era rápido e ela emanava essências leves. Quando terminou, ele simplesmente a pegou pela mão e viu em seus olhos que havia desaparecido dela qualquer mistério ou ironia, ela o gostava também, era simplesmente humana, rósea, patética, cálida. Devia ser tranquilizador ver quem brincava de súcubo trinta segundos antes revelar-se só mulher, porém havia algo perturbador na transformação. Algo que ele decidiu fazer-se corajoso e ignorar.

Ela deixou-se conduzir pela mão agora, levantaram-se e foram explorarar o espaço escuro do bar, suas pedras, candelabros, barris e madeirames falsos. Aconteceu então então de descobrirem que havia escadas dando para o andar de baixo, cobertas pelas cortinas ragadas. Sem protesto dos funcionários, desceram essas escadas e perceberam que davam em quartos comuns do hotel, que haviam sido decorados da mesma maneira que o bar acima, com objetos de madeira, velas e véus. Um dos quartos, audivelmente ocupado. Outro, com uma cama com o dossel de seda e muitas dessas velas.

—Vocês descobriram o subterrâneo da manhã, mal-du-siécle. O serviço incorre em um extra de 90 francos. Querem pedir alguma coisa? — disse o garçom da porta do quarto.

Sem reação, eles deixaram-no e repor seus copos, em todo o ritual do absinto já mencionado, após o que ele simplesmente deu-lhes as costas, voltou-se para a porta, sem dizer nada, e saiu, fechando-a atrás de si. Após alguns segundos, sem muito saber o que fazer, brindaram e se sentaram na cama.

—Eu... eu... eu nem sei... de onde você é.

—Loooonge, looonge, beeem loonge... — apontava com o copo e e estendia o braço, como que dançando, após o que entornou seu copo e atirou-se de costas no centro da cama.

Norman também livrou-se para dentro de si de seu copo quase cheio, e o que há de memória a partir daí é confuso. O cheiro quente e liso do corpo, o cheiro contaminado da boca, os lençóis, as pernas e a entrada sem dor, enquanto ela fez questão de olhar-lhe nos olhos. E ela diz, suspira, morde na orelha dele: você não sai igual. Não faz sentido, ela diz: você não sai igual. Ele quer entender, mas ela passa por cima, ela sussura, seus seios saltam: você não sai igual. E ele queima de baixo acima, para dentro dela, e ela deixa-se cair quente em seu peito, beijando o pescoço e dizendo outra coisa. Diz: "meu nome é Daisy".

Com ela sobre si, sente-se ser envolvido por uma onda cálida. Fecha os olhos e se deixa cair no que sente já ser, não é sensato dizer, mas o fato é que já merece esse nome, amor. A coisa é muito rápida, é inevitável, o calor se faz aumentar. Pensa apenas em como está feliz, seja quem for ela, e sente então que a onda torna-se ardume, ele passa a suar. Ansiedade tola, diz a si, pouco antes de perceber que as velas caíram sobre a cama e o quarto está em chamas.

Norman Bendit morreu em 09 de maio de 56.

Um comentário:

Fabio Marton disse...

Em 23/06/2009, ampliado.