Capítulo 5: Doppelgänger

—Seu roteiro... Bernie... mata o personagem principal em 15 minutos?

—Não exatamente. O que eu não contei é que 16 de maio de 56 foi uma semana depois do incêncio.

—Ah, esperto! Espertinho!...

Pelo canto da boca borrada de batom, Solange Hawthorne destravou num soluço alcoólico, cobriu-a com as costas da mão e começou a rir. Esperto, esperto, repetiu, rindo e olhando para a mão, no instante em que seu empresário a alcançou, tirou-a da poltrona e levou-a de Bendit, que ficou fixo, em pé, vendo-os sumir entre as pessoas.

—Manhã subterrânea é uma forma de se conseguir um escravo. — ouviu atrás de si e, em pânico, não se virou, temendo confirmar de quem era a voz — Você infecta um simplório, de forma que, sem ele saber, sua mente é transferida para um servidor. Então você o mata, tzn, tzn! — no gesto de imitar um tiro, encostou, injurioso, o indicador na nuca de Bendit — É assim: vai dormir e, de manhã, acorda no subterrâneo.

Bendit viu em seu ombro a mão empedrada, com pele se descamando como a de um velho elefante, unhas enegrecidas nos cantos. Voltou-se a Kim Chul-Jeong, que expirava amônia e outras substâncias à maneira dos cirróticos quase mortos. Nada disse, mordeu os lábios.

—Você tem então uma consciência incapaz de voltar à sua vida anterior, já que ela não é considerada juridicamente mais a mesma pessoa - essa está morta, kaputz. Ora, você diz a alguém que acaba de perder qualquer laço com a vida que, veja o lado bom, agora você é imortal... desde que pague o preço pela manutenção de sua consciência no servidor remoto. E, nesse instante, basta informar a seu novo funcionário que tipo de trabalho paga mais. Um player para qualquer serviço.

—O nome do bar era Casa Usher.

—Mas Daisy ela se chamava.

Apenas assentiu. Olhou por cima do ombro do ditador, estranhando que ninguém em volta olhasse para o centro da festa diante de si.

—Este encontro é privativo. Veja lá.

Ele mesmo aparecia ao mesmo tempo em outra roda, conversando com um grupo de homens, cercado de sua Guarda Vermelha.

—E noto, camarada, que você se enerva com minha presença.

—É a autoridade que emana do Premiê.

—Autoridade...

Imediatamente, perdeu qualquer conexão com o universo. Simplesmente tornou-se um pensamento sem qualquer sensação, não tinha a sensação espacial do corpo, não sentia sua respiração, peso, visão, audição, calor, frio, nada. Era apenas capaz de ser consciente no vazio negro do nada infinito e sem eventos. Como também não havia qualquer evento além do próprio pensamento, não podia saber quanto tempo estava passando ali. Muito pouco tempo foi necessário para perceber como aquilo era uma forma de terror completo, e não havia ar nem traquéia para gritar, nem mesmo suas simulações. Não havia nem como expressar que sentia terror quando não havia para onde isso ir. Tentou se desligar, tentou meditar, pensar em nada, negar esse estado antinatural de consciência eterna, mas era impossível. Quis se divertir nas próprias memórias, mas era rapidamente vencido pelo horror do nada infinito. Não é capaz de dizer se aquilo durou segundos ou anos, mas houve o momento em que sentiu seus pulmões, ainda que virtuais, novamente. E teve seus olhos tomados por Kim Chul-Jeong.

—Nem só de privação se fazem infernos. Pode ser o contrário, um excesso sensorial, por exemplo ter a sensação de um tumor que se expande infinitamente, ter desejos insaciáveis, conhecer as notícias do mundo todo ao mesmo tempo.

—Como você fez isso? Eu devia ter sido capaz de me desconectar...

—"Eu"... Quem você toma por "eu", camarada?

—Eu, que entrei na festa, e... O que você quer dizer com isso?

—Você não entrou na festa, você nasceu na festa. Copiei a consciência do espião, mas não deixei ele se conectar, foi bloqueado. Ao invés disso, criei minha própria versão dele, para ver o que faria. É por isso que você teve acesso tão fácil a minhas informações, e também a razão de eu poder vaporizar ou mandar você para o inferno na hora em que bem entender. Em outras palavras, você é propriedade da República Popular da Nação Juche.

—...

—Vou explicar o que eu quero de você, e isso é só entre nós dois. Lá fora, você vai viajar para esse endereço que descobriu, pegar a encomenda. Então vai ser informado de para onde levar o pacote. Se tudo correr certo, deixo você escolher se quer continuar a existir ou não. Não falhe, você só tem um veículo, ser perder, vai direto para o limbo que conheceu agora.

—Acho que eu...

A outra metade da frase ele disse com algodão na boca. Viu-se transferido para uma bandeja do necrotério, gelando em suas costas. Abriu os olhos e enxergava muito mal. Buda estava certo ao equivaler vida e dor: ao se entrar em um corpo novo, a sensação que se tem é a dor de quando um membro dormente deixa de estar, mas no corpo inteiro. Caiu para o lado, cuspiu o algodão, ficou dois minutos apenas se convulsionando com a dor, até ser capaz de se mover minimamente. Firmando-se com dificulade, levantou-se da bandeja e, pelo reflexo, notou que o corpo era o dele mesmo, o que havia tomado o tiro na testa para entrar na festa. Seus olhos estavam deslocados para os lados pelo rombo da bala. Pôs as mãos no alto da cabeça e sentiu a cavidade. Viu que estava na bandeja a peça que faltava, tomou o osso que tapava o cérebro e o encaixou o melhor que pôde.

Havia cerca de 20 corpos na sala, todos igualmente com uma bala de trajetória similar, arrebentados na occipital. Bendit teve tempo, não quis, mas pensou, aquilo era um tipo de profanação, de sacrilégio. Como em rituais satânicos, um Marquês de Sade violando hóstias, no fundo não se acredita realmente em nada, e se quer provar justamente esse vácuo pelo gesto. Viu o que restou de Solange Hawthorne e tocou em sua mão, com um suspiro. Depois pensou também que esse tipo de reflexão faria sentido na mente de Norman Bendit original, que andava metafísico ultimamente, mas não na de uma cópia criada por um psicopata para cumprir uma missão e ser apagada.

Riu consigo, e torcer a boca liberou um gosto de formaldeído. Quantas pessoas podem enunciar assim tão claramente seu propósito na vida?

Encontrou suas roupas num cesto no canto da sala, ou melhor, encontrou roupas no cesto. Vestiu-se como pôde, todas tinham sangue. Saindo, notou que havia uma enfermaria, cuidadosamente pegou um rolo de bandagem e começou a prender a tampa na cabeça. Sentiu o quase calor da lanterna o alcançando pelas costas.

—Que diabo?!!!

O guarda já recuava com a arma vacilando loucamente em sua mão trêmula. Norman improvisou:

—Céeeeerebro...

E conseguiu fazê-lo correr para um lado, para que pudesse correr para o outro. Alcançou a porta aberta, saiu, e notou que o necrotério era um anexo da mansão arruinada.

Buscou e encontrou o sinal do Barracuda, mandou-o vir. Ouviu os passos do guarda, que havia tomado coragem. No que ele saiu do necrotério, Norman estava no carro queimando borracha.

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