Capítulo 1: Headhunter

Assim, se você cortou corretamente na segunda vértebra cervical, a cabeça se encaixa no entalhe, você a segura pelo topo e a empurra para baixo, de forma que os ganchos se projetem, fixem ela no lugar e você possa, sem soltar, empurrar esta bandeja para dentro, fechar a portinhola, passar a trava e girar a chave, que liga. A partitura genética e a imagem da face são guardadas para posterior confirmação do cliente. A seguir, a radiação gama destrói qualquer célula viva, enquanto o pulso magnético inutiliza os dispositivos eletrônicos. E está morto o imortal. O que sobra pode enterrado, embalsamado, enviado para a família, pendurado na parede da sala, jogado no lixo, dado aos cachorros... o que você quiser, já que a radiação gama também mata os micróbios e ajuda a conservar por até 72 horas em temperatura ambiente.

Eu mato imortais, gosto do som disso. Era um leão-de-chácara num cassino em Window Rock, fui encontrado por um caçador-de-cabeças, isto é, um caça-talentos, e eu me tornei um caçador-de-cabeças, isto é, caça-cabeças. Meu talento especial, como você não deve ter percebido, é não ser especial. Olhe para mim: eu não sou discreto, nem ágil, nem elegante, com essa mandíbula projetada, esse nariz furado, pareço um açougueiro, um estivador, grande, forte e meio gordo, queimado demais de sol, terno barato azul-marinho, gravata vermelha, corte militar sem qualquer imaginação. Um homem se cansando de semana para pagar o fim-de-semana, alguém que entende por realização ter uma geladeira onde caibam duas dúzias de latas de cerveja. Um ser desprovido de personalidade, brilho e, principalmente, malícia. É evidente que eu jogo no time dos mocinhos, e sou um mero peão, os músculos sem nervos da bondade. Você esperaria que fosse um sargentão lento e bruto, que lhe daria voz de prisão e então você faria a demonstração habitual, como consta em seu prontuário.

E, no entanto, meu chapa, aqui estamos nós.

Não faça para mim esses olhos de Robespierre perplexo, como quem acaba rolar da guilhotina e saber que morte não vem com a lâmina, mas dois minutos depois. Sei que está me ouvindo. Enquanto preparava você, vi as traquéias atrás de seus ouvidos, aqui, aqui e aqui. Pelo modelo delas, sei que você tem nove horas de consciência antes entrar em hibernação obrigatória e a máquina em você assumir o controle. Já vi um de vocês assim: por baixo do pescoço, a cabeça cria tubos de alimentação, para então tentar reconstruir um corpo. Se houver árvores ou bichos por perto, em três dias sai andando. Se houver pessoas, em um só.

...

Muito bem, quer continuar a se fingir de morto, a escolha é sua. Mas devo dizer que não tenho a menor simpatia por sua causa. Não faço o tipo retrógrado mas, na mesma hora em que alguém começa a acreditar que não vai mais morrer, essa pessoa deixa de ser um ser humano. O que trai vocês é o sorriso, me torce o estômago de lembrar. Houve o tempo em que eu lia os prontuários até o fim. Arthur G. Millen era um supremacista branco que urinou numa caixa d'água em Atlanta e matou por reabsorção muscular oitocentos e noventa e quatro mil portadores de um marcador genético subsaariano. Derek Santayana mantinha mulheres vivas em cubos de trinta centímetros. Joseph Onyango era um canibal que controlava uma milícia de tératos com cabeça de hiena desde 94 do século passado. Em nome de minha sanidade, acabei me deixando confiar nos processos e hoje me orgulho de, um dia, cada um desses ter sido fotografado aqui dentro de minha mufla.

Esta árvore-de-Josué sinaliza a posição onde nenhum sinal chega, para que nenhum de vocês possa chamar amigos na última hora. Com essas folhas como faca, ela assistiu a esta mesma cena vinte e duas vezes, sempre ao lado desta fogueira, sempre com alguém se perguntando "por que essa dissertação sem sentido?", ao que a todos eu respondo: é uma profissão de excêntricos, desenvolvemos manias. Além disso, os antigos carrascos eram responsáveis por gestos de misericórdia, como se pendurarem nas pernas dos enforcados para que seus pescoços quebrassem e não morressem de asfixia. Reconheço que gastar seus últimos minutos me ouvindo falar talvez não soe como misericórdia a você, mas note como não está em posição de exigir nada.

Falando em posição, permita-me lhe ajudar a olhar para cima. Vê as estrelas? Diziam os antigos que um morto, ao se dissolver em seus átomos, se torna novamente parte delas. Isso era então uma resposta tranquilizadora, porque eles acreditavam que os astros regiam a vida das pessoas, causavam doenças, naufrágios, boa e má sorte. Virar poeira estrelar era ganhar poder. Olhe nos meus olhos.

Norman Bendit, você foi condenado por espionagem, furto, invasão, identidade falsa e agressão pela Blinder Attorneys Cororation, Malenkvicz Brothers Limited, Jux Incorporated e os sistemas judiciários estatais da República da França, República da Índia e Commonwealth da Nova Zelândia. A BearPaw recebeu o contrato de sua execução, que eu, o agente Anton Zhgenti, registro 8.9954-44 estou encarregado de levar a cabo. Se você tem algum sistema de emergência de emissão de voz ou texto, manifeste-se agora.

Eia, mas é viva a cabeça de Maria Antonieta... Olhe para mim, não para o chão... Ei, estou falando!... O que é que tem ali? ... Ali na moita?... Hmmm, não vejo nada... Que que foi? Ou!... Gambá! Shhss, sshhsh, sai, sai daqui! Na-na-na-não, calma bicho, não vai... não vai espirrar esse... ahhh...!

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Bicho estúpido, estúpido, defesa estúpida. Meus olhos parece que vão se partir e estou cheirando a ovo cozido em ácido sulfúrico, mas por acaso você está menos morto?... Ei, Bendit, pra onde você rolou? Não adianta criar pernas, eu vou achar você nesse mato. Um tiro desta aqui e você dorme melhor que o cangambá na sola do meu sapato. E aí não vai poder estar presente em sua própria execução, o que ia ser irônico. Eu não sou irônico. Vamos, infeliz, eu preciso tomar banho. Hmmm... embaixo... da... árvore! Não, em cima!... No galho, te vi! Ahr, que horrível... Uma cabeça com fitas cor-de-sangue saindo por baixo, segurando ela no galho... parecem vermes, tênias. Solta daí, coisa horrorosa, vou atirar!...

Mas não em cima de mim, cretino! Não, sai, sai, sai! Saaai! Larga, larga, solta!!!... Aff... Errei o tiro!... Sai de cima de mim! Não, não enrola essa coisa no meu pesco... pescoço.... sss...

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–Epicureanos, Zhgenti. Eram epicurianos, mas não platônicos, aristotélicos nem estoicos os que achavam que a gente é feito de átomos, que se espalham pelo universo. Destruir uma consciência não é espalhar átomos, seu materialista bebedor de cerveja. Destruir uma consciência é acabar com um processo que é melhor do que a vida... Ei, você está me ouvindo daí de dentro? Desculpe ter posto você na sua própria caixinha da morte com a cara virada para dentro, é falta de experiência. Não gosto de suas roupas de loja de departamento nem de seus pêlos nem dessa barriga de cerveja ridícula, e a cor da minha pele é três tons mais escura. Vai levar um dia e meio para ajustar seu corpo, mas acho que dá pra fazer isso enquanto dirijo de volta para para onde estava indo quando você, assim, insensivelmente, me decapitou. Falando nisso, é a única coisa sua que eu gostei, o Barracuda verde. Eu até compraria se não achasse que o valor é compatível com a indenização por meu corpo.

Não me mate, eu sou só um subordinado.

–Ah, mas você tem até um módulo de voz de emergência? Coisa bem esquisita para quem reclamava de meu sorriso. Olha, vou até abrir a bandeja, puxar você daí para te mostrar... Afff!... esse cheiro! O cangambá te acertou bem entre os olhos, não foi? Era uma máquina, imagino, infectado por minha agência, remoto-controlado para me socorrer. Eu preferiria que tivessem mandado um helicóptero blindado, mas, enfim... Pois é, agente, eu não sou um psicopata, sou um colega de profissão. Apenas nossos métodos são mais avançados que os seus, e nossos alvos tem um perfil mais elevado.

Eu só estava seguindo ordens. Eu não quis ofender.

–Que falta de imaginação, Zhgenti! Seguindo ordens? Ofender? Em nosso ramo, não se toma como ofensa o mero fato de tentarem lhe matar. Mas escute, vou ter de lhe fechar de volta ou não consigo dirijir com esse cheiro. Sorte minha que o espirro do cangambá não pegou muito no resto. Ah, sim, meu sorriso... Viu? Não é tão ruim assim... Mas, eu ia dizendo, você não me ofendeu. Aliás, como você mesmo notou, seu talento para mediocridade é prodigioso, eu diria que você é um nato. E sua técnica com o garrote no banheiro masculino é coisa que carregarei com carinhosa recordação.

Por fv...

–Cale a boca, essa voz decapitada me perturba. Agora vou parar o carro porque tem um posto logo adiante e vou aproveitar pra me livrar de você. Já que sua cabeça foi cortada na segunda vértebra cervical e encaixada no entalhe, com os ganchos fixando ela no lugar, fecho a portinhola, assim... Então eu vou seguir seu conselho e mandar você pra casa. Embrulho a caixa e, chegando no posto, dispenso você na máquina do correio. Não precisa me agradecer mas, se você fizer barulho, eu jogo no incinerador ao invés disso.

...

–Ahm... Se a placa não mente... Susan? Certo, Susan, posso despachar este pacote daqui, não é? Ah, a máquina enorme ali, toda laranja, cego que eu sou!...

–Sim, Susan, vou querer alguma coisa, sim. Duas panquecas, xarope, e um café longo. Ah, este cachecol no calor? Eu sou crooner. Peguei um resfriado e preciso preservar minha voz para cantar em Yvapai. Dá pra notar a voz estranha, não é? Sem isso de senhor Zhgenti, Suzan. Pode me chamar de Anton. É georgiano.

2 comentários:

Fabio Marton disse...

Versão em 29/03/2009, 8h12: A cena de luta e o diálogo a seguir foram modificados por questão de clareza. Várias pequenas mudanças cosméticas isoladas.

Fabio Marton disse...

Versão em 08/04/2009, 1h31. Tentando resolver uma confusão na parte do gambá/gambé.